A experiência da Marta nas Maurícias

Aquele nervoso miudinho começa a crescer, quando estou no avião quase a aterrar e penso “devo ser louca”. A paisagem vai-se aproximando e reforço a certeza de ter escolhido bem o lugar à janela, mesmo com menos idas à casa-de-banho. Tudo verde, o mar, as imensas montanhas, através do que as nuvens deixavam descobrir.

Para a maioria das pessoas, as Maurícias são praias paradisíacas. Para mim também eram. Tive dúvidas em como poderia vir a sentir a experiência pessoal que procurava que me mudasse, num sítio considerado tão turístico. Claramente não sabia o que me esperava.

O que conheci foram as verdadeiras Maurícias. As Maurícias do Inverno em Julho, com chuva, longe da praia, por muito que a ilha seja pequena. Foram as Maurícias de Moka, onde estava a sede do workcamp, as Maurícias das pessoas normais, locais, tão reais.

Éramos 11 participantes no campo: eu, dois espanhóis, duas checas e seis mauricianos (duas meninas e quatro rapazes). Mas nas nossas primeiras horas, éramos mais. Éramos uns 20 ou 30, muita gente local que nos quis conhecer, jantar connosco, saber quem seria o grupo que ia pôr mãos-à-obra por um bocadinho do seu país.

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Vivíamos numa casa que pertencia à organização local, com três andares. O primeiro era térreo no exterior, com uns plásticos que nos protegiam da chuva e do vento. Era onde comíamos, conversámos durante o dia e nos encontrávamo-nos ao final da tarde depois de tomarmos banho. Depois tínhamos mais dois andares, um para os rapazes, outro para as meninas. Dormíamos em colchões no chão, cada um com o seu saco-cama. Tínhamos duas casas-de-banho com água fria, uma cozinha e não havia Wi-Fi.

Foi nesse espaço que nos tornámos uma família. Não é cliché, é mesmo verdade. Durante 2 semanas partilhámos as vidas, olhámos nos olhos, entendemo-nos com graça, com risos. Com calma e com um coração gigante. Não há palavras que descrevam a bondade constante dos mauricianos, a dedicação. E foi uma magia sortuda poder descobri-los pouco a pouco, dia após dia. Não vi maldade, não vi egoísmo em 15 dias seguidos. E isso muda qualquer um!

O nosso workcamp consistia em trabalhar num bairro social, especialmente numa “casa” de uma divisão, onde viviam 5 pessoas: a mãe e quatro filhos, o maior já com 16 anos. A história da família é trágica, mas merece ser contada para entender por que foram os merecedores da nossa ajuda. Eram uma família normal, com trabalho, iam à escola. No entanto, num dia fatídico, a filha mais nova, com 4 anos, morreu atropelada por um tractor no meio de um dos inúmeros campos de cana de açúcar. O pai entrou em depressão e suicidou-se. A mãe tornou-se alcoólica e perderam tudo. Conseguiu forças para largar o vício e dar um tecto aos seus quatros filhos. Precário, a partilharem os mesmos 5 m2, mas ainda assim, um tecto.

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Todas as manhãs, por volta das 9h, íamos nós encavalitados em 2 carros, sem cintos, para este bairro, em Curipipe. No início chocou. Chocou-nos a nós e aos locais. Olhavam-nos de lado, os cães ladravam, os miúdos não saíam de casa e sentimo-nos um bocadinho intrusos, provavelmente porque não foi bem explicado à comunidade o que estávamos ali a fazer.

Tínhamos um casebre onde deixávamos os materiais, as malas e os sapatos, e onde nos preparámos para o trabalho físico: botas e luvas de borracha e muitos sacos do lixo à volta para nos proteger da chuva; afinal de contas, não havia gabardines para todos e quase ninguém tinha ido bem preparado para o Inverno.

Ao longo de 10 dias, com dedicação, paixão e amor ao próximo, limpámos a maior lixeira que vi de perto, que estava mesmo à frente da casa da família. Sacos e sacos e mais sacos de lixo e a lixeira não diminuía. Cheirava mal? Claro que sim. Isso impediu-nos de nos divertimos? Claro que não! Sempre que tirávamos uma mala, uns sapatos, simulávamos um fashion show para nos rirmos. Sempre que aparecia uma roda de uma bicicleta, fingíamos que a montávamos até ao contentor do lixo.

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Com o passar do tempo, no segundo ou terceiro dia, o bairro mudou. Passou a aceitar-nos, passámos a sentir-nos parte deles. Não podíamos comunicar muito, porque só falavam crioulo, mas os gestos fazem milagres. As crianças já brincavam connosco, fazíamos caretas e riam-se muito! Os cães já não se importavam connosco e continuavam nas suas sestas infinitas. As senhoras velhotas insistiam em carregar baldes de gravilha, mesmo que fossem demasiado pesados.

Fazíamos pausas com a comunidade, alguns almoçavam connosco. Fizemos torneios de futebol ali, no meio da estrada, descalços no alcatrão. Duas pedras a fazer de baliza e uma bola rota que andava por ali perdida. É preciso mais? É tão mais reconfortante viver na simplicidade.

Com a sua ajuda, construímos uma horta para que a comunidade pudesse plantar os seus legumes, para comerem de maneira mais saudável e pouparem um bocadinho mais. Movemos pedras para a frente e para trás, tantas vezes que já nos ríamos de voltar a fazer uma fila à chinês. Mas ficou bonita a nossa horta. Nos últimos dias, já em modo recta final, conseguimos os materiais para fazermos cimento e, assim, começar a fazer uma nova divisão para a casa, para terem mais espaço e um bocadinho mais de privacidade. Misturámos gravilha, terra e água no chão com pás, e de repente tínhamos um chão com ar muito profissional!

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Toda esta experiência foi ainda mais inesquecível devido ao grupo de voluntários. Aos amigos incondicionais que nasceram em meia dúzia de horas. Aos pequenos gestos, que se tornaram tão grandes. A um carinho que apetece trazer para casa. As checas começaram muito tímidas, os espanhóis a falar entre eles, eu a saltitar um pouco entre a gente. A comunicação saltava entre o inglês, o francês, o catalão, o espanhol e o crioulo mauriciano. De alguma maneira, foi assim que nos conhecemos, com expressões de cada um.

Todas as noites, depois de jantarmos todos juntos, tínhamos uma reunião para falar sobre como tinha corrido o dia. Good evening guys, era o chamamento, quando nos tornávamos mais honestos, construtivos e tão unidos. Nas Maurícias, ou pelo menos ali, planeia-se muito tudo. Planeia-se o dia seguinte ao detalhe, o que vamos fazer em cada hora. Quando chega o dia seguinte, os planos mudam totalmente. Mudam os horários, muda a dinâmica, muda a acção. No início frustrou um bocadinho. Depois adaptamo-nos e é tudo melhor, com calma, muita calma. Que tranquilidade de maneira de viver!

Depois da reflexão sobre o dia, juntávamo-nos todos num dos quartos, em rodinha ou deitados nos colchões, com umas cervejas e música de fundo, especialmente em francês. Hoje, quando ouço essas músicas, voo quilómetros e volto a sentir-me nesse chão onde partilhámos quem éramos. Passavam-se horas na conversa e a rir, a descobrir mais de cada um, a criar ligações que só este ambiente permite. Foi assim que nos tornámos essenciais, foi assim que nasceram os abraços, a confiança que só se tem com quem vivemos tão intensamente e de maneira tão verdadeira.

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Tivemos dois dias livres de descanso. Num deles, fomos à capital, Port Louis. Já fomos tarde, porque a noite anterior tinha sido longa. Fomos com os nossos colegas das Maurícias, então estávamos à vontade. Apanhámos o autocarro directo e passámos o dia a passear pelas ruas antigas e pela zona moderna.

No outro dia livre, queríamos ir à praia. Apesar de estar (sempre!) mau tempo em Moka, bastava afastarmo-nos uns 20 minutos de carro e encontrávamos o sol e a praia por que tanto ansiávamos. Saímos por volta do meio-dia para apanhar um autocarro, pelo qual esperámos 40 minutos e nunca chegou a aparecer. De repente passa uma carrinha de 10 lugares e, sem sabermos bem como, estávamos lá dentro em direcção ao nosso destino, começava a aventura! Deixou-nos numa vila, os mauricianos estavam convictos e fomos a um mercado comprar comida típica, coisas estranhas que não sei confirmar o que comi. Mas provei de tudo, não podia negar essa experiência.

Enquanto comíamos, levaram-nos a ver o mar. Bonito, azul, que vontade de mergulhar! Onde está a praia? Era preciso apanhar outro autocarro, que por sorte estava à nossa espera na paragem. Entrámos, esperámos. Esperámos mais de meia-hora, porque o condutor não aparecia, e não fazia mal. Não havia uma única pessoa chateada, ansiosa, revoltada ou stressada com o atraso. Nós e todos, esperámos com calma, com uma paz interior!

Chegámos finalmente à praia, com os aviões a passarem a meia dúzia de metros de altura. Água cristalina e o sol que desapareceu em menos de duas horas. No meio disto tudo, perdemos o autocarro de volta; sem stress. O plano: atravessar um enorme campo de cana de açúcar à noite, para chegar à vila ao lado onde teríamos outro autocarro. Apesar de surreal, pareceu-nos o plano perfeito. Íamos com música, copos de rum e um bom feeling de paixão profunda pela vida. Pelo caminho, aparece outra carrinha de 10 lugares: “precisam de boleia?” Entramos, luzes néon, música aos altos berros, que energia! E levou-nos a casa.

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Os últimos 4 dias do workcamp foram passados em cima de uma bicicleta. Todos os anos celebram a amizade e a paz com uma volta à ilha em duas rodas. Pareceu-nos a ideia perfeita para conhecermos as Maurícias, ver cada quilómetro que percorríamos com a nossa força. Confesso que foi duro, muito duro. Uma média de 30 quilómetros por dia, com muitas subidas e descidas. Se voltava a fazer? Agora que já me esqueci das dores e do cansaço, digo já que sim!

Foi das melhores experiências!! As Maurícias têm uma beleza natural incrível, umas montanhas que nos deixam sem folgo e uns campos de cana de açúcar de perder de vista. Foram quilómetros e quilómetros de olhos apaixonados, de companheirismo de “vamos, tu consegues, estamos quase!”. De ter de parar para admirar, já sem força para tirar fotos, para respirar tanta pureza. Foi incrível!

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A melhor parte do dia era quando chegávamos ao destino, exaustos. A meta era sempre uma das tais praias paradisíacas famosas do país. Água quente e cristalina, o sol a desaparecer, a areia fina e os músculos a relaxarem nas braçadas juntos, nas palhaçadas dentro do mar, na água de coco partilhada ou nos mini-ananases que vendiam as barraquinhas.

Montávamos as tendas, enormes para 6 pessoas cada, jantávamos à luz da fogueira. Abraçávamo-nos muito com a sensação que o fim da aventura estava próximo, e dormíamos que nem pedras em cima da areia, porque o corpo pedia descanso.

Esse fim da aventura chegou, já de volta a Moka. Com despedidas na cascata, com as últimas cervejas da viagem. Estava triste, mas tinha o coração tão feliz! Senti-me tão sortuda por tudo o que vivi e senti, por me terem voltado a ensinar o que é a calma, a amizade verdadeira, o coração puro, a dedicação desinteressada.

As pessoas, esse amor que nasceu, foi o que trouxe para casa, o que me enche as memórias. Estou realmente grata pela experiência incrível que me abriu o mundo dos workcamps, quero voltar a fazer outro já, já, já!!

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