A experiência da Marta na Boavista, Cabo Verde

Ainda faltam as palavras para descrever tudo o que vivi o mês passado.

Desde o dia em que decidi embarcar nesta aventura até ao dia de partir foi um salto. De um momento para o outro, as malas estavam cheias. Cheias de medo, incerteza e insegurança. Mas também carregadas de muito para dar, de conhecimentos para partilhar e de esperança em tornar o mundo (de alguém) melhor!

Assim que aterrei em Boa Vista o ar parecia cortar a respiração. O sol queimava mais, a paisagem era seca e deserta, e tudo funcionava a um ritmo diferente. Percebi que estava fora da minha zona de conforto como nunca. Seguimos para o bairro onde íamos começar a trabalhar, o Bairro da Boa Esperança, ou Barraca, como é chamado. Por muito que tenha visto fotos e vídeos, é impossível ficar preparado para conhecer um sítio como este.

Caminhar pela primeira vez pelo bairro foi surreal. O ambiente era quente e húmido e os cheiros fortes. Ali não existe nada do que nos é dado como garantido: nem água canalizada, nem saneamento, nem electricidade. Lidar de perto com este tipo de pobreza foi mais difícil do que esperava. Mas rapidamente percebi que, mesmo assim, há música nas ruas. Que as pessoas se juntam, que jogam, que cantam e dançam, e que há sempre quem tenha um sorriso para oferecer.

Os primeiros dias na associação foram invadidos por um sentimento de frustração. Tinha a sensação de que nunca iria conseguir mudar aquela realidade e de que, no final, tudo continuaria igual. A organização e o ritmo são diferentes. Ter mais de 30 crianças numa sala tão pequena tornou difícil a realização das actividades como tinham sido pensadas. São crianças alegres, sonhadoras e criativas, mas muito energéticas e habituadas a não ter regras. Foi preciso entrar no ritmo, perceber a realidade em que vivem e aprender a lidar com isso. Aprendi que é preciso ser
flexível, estar disposto a adaptar os planos às condições, que nem sempre são favoráveis. É preciso não levar expectativas. É preciso não ter pena. É preciso ter muito amor e carinho para dar, sem preconceitos.

Trago comigo a imagem daquelas crianças a correr de braços abertos para nos receber. Foi assim que nos receberam todos os dias, como se fosse o primeiro. Foi por elas que fomos e foi com elas que aprendemos mais. É incrível a quantidade de amor que têm para dar. Com elas aprendi que não somos o que temos, somos o que damos. Aprendi que a felicidade está nas pequenas coisas. Aprendi que com quase nada se faz muito, e que precisamos de muito menos do que julgamos.

Voltei com o coração apertado porque hoje estou aqui, mas elas continuam lá. Mas voltei com a esperança de que tudo o que ofereci um dia vá fazer a diferença, mesmo que pequena :)

Resta a promessa de um dia lá voltar. A esse sítio que será para sempre especial. Onde deixei muito de mim, mas de onde trouxe ainda mais. Onde apesar de todas as carências se vive de uma maneira humilde, simples e feliz, sem stress.