A experiência da Maria no Tarrafal

A vossa experiência são vocês que a vão fazer.” – ouvi a Marta dizer, na reunião de voluntários que fizemos antes de toda esta aventura começar. Desconfiei que fosse verdade, mas nunca imaginei que esta frase pudesse resumir tão bem os dois meses que passei em Cabo Verde. Menos imaginei que que esta viria a ser uma das lições mais importantes que já aprendi.

Antes, vivia como a maioria de nós: a fazer o que é suposto; o esperado. Vivi sempre com o amor da minha família. Fiz grandes amigos. Apaixonei-me algumas vezes. Fui sempre feliz, ou pelo menos achei que sim. Tive a sorte de poder escolher o que queria estudar e onde queria estudar. Tive boas notas. 23 anos, licenciatura e mestrado concluídos com bom aproveitamento. Indicadores de um futuro profissional risonho.  Sabia que estava a correr muito… mas estaria a correr no caminho certo? Esta pergunta não parava de assaltar a minha mente. E por isso decidi procurar respostas. Conhecer-me melhor. E conhecer melhor o mundo à minha volta.

Saí do suposto. Parei de olhar para o que estariam à espera que eu fizesse e decidi olhar para o que gostava eu de fazer. Acredito que só nos conhecemos a nós mesmos do outro lado do medo, e por isso, fiz as malas e decidi sair da minha zona de conforto. Porque é aí que a vida começa.

Escolhi este projeto depois de ter percebido a diversidade de atividades que esta instituição procura oferecer às crianças do Tarrafal. A forma apelativa como a informação se apresentava no website e a visão da instituição em relação à educação foram os grandes motivadores da minha escolha. 15 dias depois de enviar a minha candidatura, fui selecionada. Um misto de felicidade extrema e um pânico desmedido começaram a assaltar os meus dias. Milhares de perguntas e dúvidas sobre como tudo se processaria ou quais os passos a seguir. Não se preocupem demasiado! A Inês e Marta vão ser as vossas mães ao longo de todo o processo. E como mães carinhosas que são não vão deixar que se sintam sozinhos(as) desde o primeiro minuto até ao fim do vosso tempo de voluntariado. É mesmo de sublinhar a simpatia, a preocupação e o acompanhamento da equipa Para Onde. Inigualáveis.

Os dias passaram calmos e tranquilos até chegar o dia da partida. Faltou o ar. Os olhos incharam. As perguntas gelaram a minha mente entre os corredores do aeroporto.. “Não conheço ninguém, não sei como são as pessoas lá, não sei o que posso comer, mosquitos, doenças e repelentes. Bahhhh. “E se eu não fosse?” – Mentia se dissesse não o ter pensado. “Mas afinal o que é que eu faço sozinha dentro de um avião a caminho de África?” – escrevi no meu diário, já dentro do avião.

Mesmo passados dois meses, continua a ser muito difícil descrever o que encontrei. Procuro palavras. Não encontro. Lá onde as casas são cimento por acabar de construir, há mais cores do que as que alguma vez vi. Falando de condições, não há internet, água potável, televisão nem carro. E a única pressa que há é a de ser feliz.

A minha experiência neste projeto não foi sempre boa, ao contrário do que se possa pensar. Dias bipolares, de rir até doer a barriga e dias cinzentos, com nós no estômago e algumas lágrimas. Existem uma série de constrangimentos que dificultaram desde o início o meu trabalho com as crianças. Em primeiro lugar, existe uma visível desorganização e desacordo em relação aos ideais de educação entre os funcionários do projeto, o que levou a que nem sempre existissem respostas coerentes e homogéneas para os problemas das crianças. Aqui é muito fácil encontrar crianças que sofrem de maus tratos psicológicos e físicos em casa e na escola, crianças que são negligenciadas, batidas, abandonadas, abusadas. A necessidade de um Psicólogo(a) é por estas e outras razões evidente e muito urgente e apesar de eu ter levado comigo algumas ideias e atividades propostas nem sempre foi fácil colocá-las em prática, uma vez que tinha que ficar a maior parte do tempo na Sala de Artes a desenvolver atividades artísticas com as crianças. O trabalho na sala de Artes foi muito cansativo e difícil no início, mas muito recompensador depois de as voluntárias se unirem para tentar que as crianças respeitassem algumas regras básicas de convivência, que até então não eram utilizadas aqui. Falando de coisas menos boas, é bem provável que a frustração venha a fazer parte dos teus dias, se iniciares este caminho. Ver os pikinotes chegarem com as marcas da pancada no corpo e com um sorriso (sempre com um sorriso) na cara é algo muito difícil de digerir. Eu senti-me impotente e de mãos e pés atados muitas vezes.

Sem saber o que haveria a fazer, percebi que as mudanças, se existirem, são milimétricas. Mas por isso não são menos importantes. Fomos devagar, consegui pôr os meus pikinotes a falarem sobre o que os deixa felizes e tristes, quando se zangam e de que têm medo. Uma vitória que faz valer cada segundo que passei no Tarrafal.

Estes meninos têm muito menos razões para sorrir que tu, e, no entanto, são mestres na arte da felicidade. Limpei as lágrimas a alguns, e eles ensinaram-me a viver com o coração. São eles que vão fazer valer cada segundo que aqui estiveres, cada noite mal dormida, cada dia em que vais sair do projeto sujo(a) e a cheirar mal. São eles, e só eles, os mestres aqui. São eles que te vão guiar enquanto cá estás. São eles que te vão fazer rir até doer a barriga. São eles que te vão ensinar a viver sem nunca perder a esperança. Serão eles o porquê de nunca conseguires desistir de nada, mesmo quando à tua volta tudo puxa para que o faças. Serão eles o motivo do teu cansaço e das tuas lágrimas. Mas serão eles também, o teu maior motivo de orgulho, a partir de agora.

A agradecer, agradeço-lhes a eles. O olhar da Kenyra e o sorriso do Leo. Os beijinhos da Darlene. Aas mãos dadas com a Diva e as gargalhadas com a Vanessa. O carinho da Marcília e a energia da Larissa. A esperança do Oliver e o amor da Taíssa.

Os meus pikinotes, levo-os a todos tatuados na minha alma, um a um. Têm que inventar mais cores lá onde eu moro para que as pessoas os consigam imaginar, porque todas as cores do arco íris nunca hão de chegar para os descrever. Por mais que eu tente. Parte do amor que lhes tenho vai comigo. O que resta fica com eles, na esperança que o plantem como uma pequena semente que gostava que crescesse tão alto como as árvores que os vejo subir todos os dias.