A experiência da Mariana em S. Tomé

Tudo começou com um sonho de criança. Há muito que sabia que em determinada altura da minha vida iria chegar o momento em que teria de ir para África ajudar alguém. Esse momento chegou exatamente depois de ter deixado o Agrupamento de Escuteiros – 844 – do qual fiz parte durante doze anos. Senti que precisava de encontrar um rumo e que esse rumo passaria por contribuir positivamente na vida de alguém. Por outro lado, acreditava que precisava de um ‘choque’ com outra realidade. Basicamente, sair da minha zona de conforto. Foi aqui que entrou São Tomé. E porquê São Tomé? Ainda hoje não sei explicar ao certo. Sim é uma ilha linda e apaixonante em muitos sentidos, mas mais do que isso, eu sentia que era para lá que teria de ir.

Sabem aquela típica frase, que surge sempre que alguém se mete em aventuras de voluntariado ou a viajar sozinho, e diz que “recebemos mais do que damos”? É cliché, mas é mesmo isto. Imaginam do tamanho em que coração pode ficar quando um menino vos oferece um desenho em que agradece o que fazem por ele e pelos outros meninos da instituição? E o único pensamento que nos ocorre é “fiz assim tanto?!” ou “o que é que fiz realmente?”. É muito gratificante e enche-nos o coração de facto. O que para nós pode ser tão pouco, para eles é tanto… dá que pensar.

Trago várias histórias gravadas, mas uma das que mais me tocou, foi quando num dia de manhã estava a ajudar os meninos a fazer os trabalhos de casa e um deles me perguntou se eu sabia falar e escrever inglês. Este menino é o Cleizy. Ele soube que eu tinha estado nos E.U.A. antes de ir para a ARCAR em São Tomé e apesar de não ter revelado tudo no momento, o Cleizy viu-me como uma oportunidade para atingir o seu sonho.

Tirei-lhe esta fotografia nesse mesmo dia, à tarde, quando regressava da escola e foi o mote perfeito para mais de uma hora de conversa que se seguiu. Como grande parte dos meninos, o Cleizy tem um sonho. O sonho do Cleizy é vir a estudar nos E.U.A onde partilhará quarto com o seu melhor amigo e colega de turma, mas para isso ele tem de estudar muito para conseguir receber uma bolsa de estudo, e o mais difícil para ele: aprender inglês. Pediu-me que o ajudasse a decorar os verbos irregulares. Soube logo que a gramática de Inglês que tinha ainda guardada na mala já tinha um novo dono. Dizer-lhe que sim seria um desafio daqueles, porque tinha cerca de 2 semanas e meia, os meninos tinham testes e trabalhos para entregar e precisavam da nossa ajuda, e eramos duas voluntárias para dar atenção a quarenta e sete meninos com idades entre os 4 e os 17 anos.

Não quis desiludi-lo e prometi que o ajudava. Um dia quando estávamos a estudar, apercebi-me que a gramática que ele já tinha e por onde estudava, porque já conhecia e achava mais fácil, embora complementasse com a que lhe ofereci, estava completamente desatualizada, tinha a data de 1921 e praticamente todas as páginas tinham erros, tanto de português como de Inglês. Com o passar do tempo temi cada vez mais não conseguir cumprir com o prometido e sentia-me responsável. Comecei a minha pesquisa e entreguei-lhe uma folha com links de vídeos que ajudam a estudar os verbos irregulares e a gramática inglesa. Não conseguindo cumprir com o prometido, quis deixá-lo orientado para que pudesse prosseguir os estudos mesmo sem eu lá estar. Antes de vir embora entreguei-lhe a gramática (muito mais completa) oferecida pela minha mãe e que chegou a São Tomé através das voluntárias de Março, com quem ainda estivemos. Foi comovente, ele agradeceu mas nem precisava porque os olhos e o abraço dele disseram tudo mesmo antes de ele ter dito uma única palavra.

Foi incrível perceber como os meninos nos veem consoante a idade que têm. Para os mais pequeninos até cerca dos 8 anos, somos sinónimo de brincadeira e mimo (até nos ficarem a doer os braços por estarem sempre agarradinhos, bem coladinhos). Para os meninos com idade intermédia, até cerca dos 14/15 anos, somos uma espécie de modelo e procuram-nos muito para conversar sobre o mundo – o nosso, o deles e o que sobra disso – e para nos falar sobre os seus sonhos. Já com os mais velhos, com idade até aos 17 anos, passa-se mais ou menos o mesmo que com os meninos em idade intermédia, embora nos procurem muito menos por já estarem muito focados no futuro e nos estudos, uma vez que alguns já sabem o que querem.

Nunca pensem neles como “coitadinhos” por não terem acesso a tudo como nós temos (de forma exagerada e por vezes até prejudicial). Quem nos dera a nós termos a capacidade de ser todos os dias tão felizes quanto eles, a viver uma vida muito mais simples sem ter de recorrer ao que é supérfluo para nos sentirmos melhor. São crianças extremamente desenrascadas e autónomas, mas o que mais impressiona é a pureza que transmitem e que infelizmente não é fácil encontrar.

Todos os dias sinto saudades: dos meninos, das amizades, das paisagens e até do leve-leve, que confesso ter-me feito alguma confusão de início.

É só entrar no espírito e viver como eles para sermos igualmente felizes e nascer o bichinho que diz “preciso de voltar”.