Mariana, Santo Antão 🇨🇻

Já passou mais de um mês desde que, em lágrimas, caminhei para o barco tentando, sem sucesso, evitar olhar para trás e encurtando a distância que me separava de Portugal. Sabia, porém, que essa distância ainda era longa quando o coração tinha ficado uns passos atrás.

O Bilela (Sr.Manel) disse uma vez, “Eu gosto muito das palavras, não sei quais gosto mais”. Partilho do mesmo “problema” e, temo que, mesmo descobrindo as que mais gosto não compreendam a profundidade de cada dia que, ao longo de três semanas, passei em Santo Antão.

Em setembro de 2019 decidi dar o passo e realizar o sonho de fazer voluntariado internacional. África sempre me fascinou, a vontade de ir a Cabo Verde era grande, mas sem razão aparente, escolhi Santo Antão. Sei, agora, que não foi por acaso.

O bichinho pelo desconhecido desafiou-me a sair do meu conforto e a “sozinha” entrar no avião dia 1 de fevereiro de 2020. Não me assustam aventuras mas para quem gosta de ter tudo planeado parece difícil que o apanhem de surpresa.

Fui sem expectativas e com uma quantidade de borboletas (boas) na barriga. Só sabia que queria “dar” sem receber nada em troca. Consigo agora perceber que qualquer expectativa que tivesse criado seria insuficiente. Não imaginava que este desafio me faria crescer tanto em tão pouco tempo.

Lá, lembro-me de ouvir que fazemos a nossa própria sorte, mas, às vezes, não sabemos bem o que é ter sorte. Vim com a ideia de que sorte é conseguir estar pleno e em paz… é ser genuíno e não conseguir evitar soltar gargalhadas, contagiar sorrisos, acolher de braços abertos e sentir, durante o dia, que não poderia faltar mais nada. Foi assim que me senti e me fizeram sentir todos os dias: sortuda. As pessoas são felizes, cumprimentam-se na rua, os miúdos brincam e “andam à solta”… a simplicidade com que levam o dia a dia é extraordinária.

Os galos cantam, os cães ladram e começavam as manhãs em que, mesmo quando, pontualmente, não havia água na torneira e estava suao (calor seco), caminhar até ao Alto de São Tomé tornava-se cada dia mais fácil e a distância mais curta quando, os idosos, em troca de um “Bom dia, Tud dret? Dormiu bem?” nos recebiam com abraços apertados e mil beijinhos.

 É incrível como nos fazem sentir que pertencemos ali desde sempre. Mesmo nos dias em que se sentiam mais em baixo era fácil cativá-los com uma conversa e pouco a pouco iam confiando em nós para partilhar o que os incomodava. São todos diferentes, mas, em comum têm uma garra de viver e uma alegria contagiante, sempre com interesse pela mais banal atividade que tivéssemos para eles. Cada um, à sua maneira, foi capaz de me tocar cá dentro. Deles levo ensinamentos que não esquecerei.

As manhãs e os fins de tarde eram passados no Espaço Jovem. Com jogos, pinturas, desenhos e com música, que os miúdos eram capazes de fazer com todo o tipo de objetos. Brinquei e corri até as pernas quererem parar e descobri que afinal ainda há uma criança em mim!

Tenho sodade daqueles miúdos todos especiais e talentosos que me faziam sorrir todos os dias, de manhã à noite, e me enchiam de tanto mimo. De os ouvir brincar na rua e ir à janela. De gritarem “Ê MARíííaana” e dos toques à campainha.

Tive oportunidade de participar no início de um projeto para desenvolver os Centros Multiusos de outras localidades fora de Porto Novo. Ao visitar estes espaços vi uma evidente falta de materiais e condições, falta de apoio e de iniciativas para promover o desenvolvimento de atividades e para apoiar os jovens locais a diversos níveis. Mergulhei assim, no interior da ilha, abri os olhos e toquei de uma forma ainda mais profunda na consciência… Foi um misto de emoções. No meio das pessoas fantásticas que me acompanhavam e dos bons momentos que estas visitas me proporcionaram, apercebi-me que há sítios onde não há água e só há luz durante dia. Em que os transportes são escassos e as crianças caminham horas para chegar à escola. Em que a seca é uma realidade e alguns alimentos começam a faltar. Há, um dia para a batata e outro para o tomate (…). A água da torneira é desaconselhada, mas a engarrafada é um luxo. Uma caneta e um caderno não são bens banais.

Entre muitas coisas, compreendi que, quase inconscientemente, desvalorizamos e tomamos como garantida a vida que levamos. Construímos uma sociedade em que damos demasiada importância ao supérfluo. De cada vez que me deslocava à praia e via os miúdos chapinhar felizes na água, pensava: É mesmo preciso ter “mil fatos de banho” (ou até mesmo um) e uma toalha? A resposta era evidente quando os observava a vir da água para se deitarem na areia quente com um sorriso de satisfação nos lábios.

Ao mergulhar no coração da ilha, vi a beleza da terra e das suas gentes, uma imensidão de verde que só os olhos são capazes de captar. Senti a cultura, a transparência e a hospitalidade de um povo resiliente, pautado pela “firmeza” e pela “morabeza”. Foram tantas as pessoas que me marcaram e as amizades que levo para a vida que se quisesse agradecer-lhes não chegariam as palavras. A bondade que transborda nos seus corações é infinita. É tão bom saber que mesmo longe, esta paz e este amor caminham a meu lado neste coraçãozinho apertado.

Com o coração cheio sei que posso não ter mudado o mundo, mas como se diz “grão a grão enche a galinha ao papo”. Cada abraço e beijinho que dei, cada gargalhada que provoquei, cada vez que brinquei, sorri, corri e os carreguei ao colo ou às cavalitas por mais mínimo que pareça é valorizado e retribuído porque na verdade nós recebemos mais do que damos.

O Sr. Gregório dizia todos os dias, incansavelmente, “A vida é pa viver em vida” e eu sabia que estava ali a viver. O maior conselho que tenho é que não adiem os sonhos, vão sem medos, agarrem oportunidades.

Sem arrependimentos (a não ser ter ficado apenas 3 semanas) e grata por uma das melhores experiências da minha vida, sei que, encontrei, no voluntariado, uma nova forma de viajar, de me descobrir e de contribuir para um mundo melhor.

Com muita sodade tenho a certeza que voltarei a este pedacinho do céu :)

Sintanton é sab!