A experiência da Manuela na Palestina

Um rasgo de sorte trespassa freneticamente o meu imaginário. A oportunidade de ir à Palestina ilumina-se quando me dão conta que a organização Para Onde? tem disponível um programa de curta duração de voluntariado no país que me acalenta o coração. Daqui em diante uma imensidão de dúvidas intromete-se pelo meu espírito, no entanto, uma certeza apenas imperava, os sonhos são matéria-prima em estado bruto prontos a serem esculpidos por uma irresistível força de vontade. Força essa que transporia espíritos, superaria corpos esbatendo-se longínquas fronteiras.

A chegada a Ramallah desvendou uma cidade jovem, dinâmica, movimentada por uma massa humana repleta de vivacidade e um colorido que tomavava vivacidade nas agitadas batas das pequenas crianças que em pequenos grupos ou acompanhadas se encaminhavam para um outro dia de aprender.

É hora de avançar até outras paragens. O campo de voluntariado aguarda-me numa viagem que a bússola indicará certeiramente para norte, Nablus aguarda-me.

A chegada ao campo é digna de um relembrar acompanhado de um sorriso, um conjunto de estradas e caminhos por onde o automóvel me embala em deliciosos solavancos tornam a viagem numa jornada em nada aborrecida e com traços apetitosamente excitantes.

O desligar do motor marca o início das saudações iniciais com os voluntários que organizam e lideram o campo, à sentida receptividade dos mesmos acresce a reluzente empatia de Palestinianos que colaboram com o mesmo e nos fornecem acolhedores locais de dormida excedendo-se ainda em deslumbrantes e palpitantes refeições arrebatadoras que cumprem fielmente a linha de excelência da gastronomia árabe.

Com o raiar do sol dão-se começo às actividades agrícolas desempenhando os voluntários um precioso trabalho em estufas sempre entrecortados por pausas tanto para xay, (chá), como para qahua, (café).

O trabalho nas estufas consistia na ajuda à manutenção das mesmas através da remoção de ervas daninhas, alinhamento das guias com a colheita futura e a recolha da colheita. A complexidade das funções descrita era reduzida e a carga física requerida situar-se-ia na nulidade. O trabalho era leve e aprazivelmente entrecortado por um infindável número de paragens para a ingestão de bebidas ou de pequenas refeições. A intensa e prazerosa degustação dos múltiplos chás que pude apreciar foi em si uma experiência valiosa e um estímulo para qualquer tarefa em que me empenhasse.

Da mesma forma que o trabalho dos voluntários com a terra Palestiniana não servia o propósito directo de retirar daí qualquer proveito material as pausas não encerravam apenas pressupostos alimentares. Os intervalos propunham-se a um inestimável convívio com o restante grupo de voluntários, como também e especialmente com os Palestinianos, surgindo desta simbiose um acréscimo de conhecimento que se direccionava para o recanto das memórias mais belas e se alojava nas profundezas da minha alma que abulia agora com as histórias, conhecimento e mágoas deste povo.


No período da tarde, alternava-se entre visitas às maiores cidades Palestinianas ou actividades lúdicas de contacto com o meio envolvente ao campo e de conversas e workshops sobre a história da Palestina e Palestinianos.

Mas não só na questão da terra os voluntários puderam dar o seu contributo, o auxílio prestado na pintura de uma escola e plantação de árvores na área no campo foi um acto revestido a esperança para as gerações mais jovens.

Após as estufas, afigurava-se premente uma passagem pela escola de forma a desenvolver algum trabalho em proveito das crianças Palestinianas. Algo que veio a tomar forma na limpeza do recreio da escola, pintura de muros e ainda a criação da bandeira Palestiniana.

Só após viver esta realidade mistificada pelo sonho me apercebo de algo. Só agora me apercebo que o paladar que sempre me acompanhou eram vestígios de um povo inefutável. A minha boca é agora uma convulsão de gerações passadas que lutaram pela liberdade com um travo do presente daqueles não que se resignaram e que nunca cairão verdadeiramente, os meus lábios serão doravante um incessante propulsor oratório de uma história sem fim, com começo, mas ainda sem fim. Porque o horizonte nunca se extinguiu no olhar da Palestina.
Envolta e coberta por um passado de resistência delineado num imenso kufya, (lenço Palestiniano), tecido a Esperança, gritarei incansavelmente a plenos pulmões, “Viva a Palestina Livre!”.