A Experiência do Luís na Guiné


A Guiné-Bissau é um pequeno País com cerca de 1.800.000 habitantes que após uma guerra de libertação com o colonialismo Português conquistou a independência, em Setembro de 1974. Desde então, inúmeras vicissitudes têm contribuído para o enorme atraso económico e social que a sua população vive nos dias de hoje.

A instabilidade política e governativa consequência de 20 golpes de estado desde a data de independência, sendo que dezasseis deles não foram bem sucedidos, são a principal causa dos graves problemas que hoje grassam no País colocando-o entre os mais pobres do Mundo.

Grande parte da população, cerca de 26%, sofre grave situação de insegurança alimentar e desnutrição e, desde 2017, este valor tem tendência para aumentar. Como consequência  existem fortes índices de anemia nas mulheres em idade reprodutiva e nas crianças com efeitos directos no atraso do desenvolvimento.

O Plano Nacional de Desenvolvimento Sanitário III prevê que 90% do orçamento da saúde seja financiado por apoio externo e população não confia no sistema.  Patologias como a tuberculose, malária e febre amarela contribuem para que a esperança de vida não ultrapasse os 58,2 anos.

A corrupção é uma doença endémica que atinge os governantes, o funcionalismo público e as autoridades policiais colocando a Guiné na posição 170 entre os 180 países mais corruptos do Mundo o que acentua a pobreza instalada, agrava as desigualdades, atinge os direitos humanos e fragiliza as instituições do Estado.

A Educação no ensino básico é em grande parte garantida pela iniciativa de privados e não sendo obrigatória 23% das crianças estão fora do sistema educativo. No ensino estatal a falta de pagamento aos professores que passam meses sem receber dá origem a greves ininterruptas que originam que das quinze unidades curriculares previstas no ensino básico, apenas três ou quatro são cumpridas.

Apesar de ter decorrido em Abril último em Bubaque o  V Congresso da Educação Ambiental dos PALOP e Galiza, actualmente  mais de 90% dos guineenses cozinham a carvão, a recolha do lixo é limitada e a sua eliminação é feita por incineração sem qualquer tratamento provocando enorme poluição ambiental.

O corte ilegal de árvores e a destruição da floresta determinam alterações climáticas significativas reduzindo em volume e tempo a época das chuvas com consequências negativas na produção agrícola.

A actividade piscatória está controlada por embarcações estrangeiras que através do arrasto selvagem delapidam os recursos piscícolas do País.

Neste cenário, um povo maravilhoso, resiliente e solidário tem de sobreviver e conhecendo as suas dificuldades e dos seus irmãos partilham com generosidade o arroz da refeição familiar com qualquer um que chegue mesmo se desconhecido.

Os mais jovens, inspirados pelo sociólogo guineense Miguel Barros, têm consciência critica dos problemas do País e dialogam sobre as suas origens e como ultrapassa-los, outros já sem esperança optam pela viagem da emigração, por vezes uma aventura fatal.

No dia a dia têm de se divertir. A festa é um lenitivo que os anima para o dia seguinte e os faz esquecer as dificuldades por isso gostam de brincar, conviver e arranjar pretexto para soltar a alegria que reside muito no fundo dos seus corações.

Aos voluntários cabe a grande responsabilidade de lhes levar o que mais falta lhes faz e não são apenas bens materiais.

É necessário transmitir aos Guineenses uma mensagem inspiradora e de confiança no seu potencial, incentivá-los a não descurarem a educação que é única via que os libertará e a garantia do seu futuro, a terem orgulho na Pátria que libertaram e capacidade para fazerem dela um lar confortável para a família Guineense.

Cabe aos voluntários dar um exemplo de trabalho, organização e rigor e transmitir aos guineenses que sem estes valores e sem o empenho pessoal de todos eles os seus objectivos nunca serão atingidos.

Foi para isto que fui voluntário na Guiné-Bissau, pois acredito no potencial e capacidades dos Guineenses, na sua generosidade, na sua alegria que pode transformar um trabalho árduo num divertimento.

Com humanidade, solidariedade e um grande sorriso é mais fácil transformar o Mundo.

Se fosse fácil, não seriamos corajosamente voluntários, seriamos apenas turistas.