Lícia, Suíça 🇨🇭

Se tivesse de definir a minha experiência de voluntariado numa palavra, seria de plenitude. Plenitude pela paz que estar lá me trouxe: naquela zona rural da Suíça, entre montes e campos, com as crianças, com os outros voluntários. Foi a concretização de uma vontade antiga, ver-me naquele lugar. Saber que contribuía com mais um passo para algo que sempre me foi importante: manter uma participação ativa na comunidade, remando por diversas causas. Fazê-lo com crianças, numa situação fragilizada, fez todo o sentido. 

Les Reussilles

Participei no projecto de voluntariado do SCI com crianças refugiadas, em Tramelan (Suíça). Neste, dinamizámos atividades de Teatro e Circo para as crianças do centro de refugiados – também aberto às de nacionalidade suíça – com o propósito de promover a integração social.

Vários voluntários

Éramos oito voluntários de nacionalidades diferentes. Eu, como a única portuguesa, e os restantes de Espanha, Suíça, Eslovénia, Holanda, Alemanha e Bélgica. A experiência cultural é muito interessante, uma vez que acabámos por partilhar muito das nossas origens. Quer seja na ementa para o jantar, o que mais gostamos de fazer, como cumprimentamos os outros, há sempre um bocadinho de nós que remonta de onde viemos. Apesar das inúmeras diferenças, tínhamos um propósito comum que nos unia: dar àquelas crianças atividades estimulantes, que as divertissem e integrassem.

Atividades de bricolagem

Tivemos, na primeira semana, várias dinâmicas em grupo que nos permitiram desenvolver a sensibilidade pedagógica, a criatividade, a capacidade de liderança e a criação de laços entre equipa. Foram também vários os momentos dedicados à explicação dos casos de migração e asilo, a ouvir testemunhos de refugiados e a perceber o contexto político e, consequentemente, a luta pela paz e pelos direitos humanos que tentamos trilhar. Foi uma primeira semana de preparação teórica e prática para a segunda semana e a verdadeira concretização do projecto.

Atividades de acrobática

Para além de outras, como teatro e jogos de grupo, ficou definido que eu estaria na monitorização de atividades de circo – o tecido. Gostei particularmente de estar responsável por essa parte, porque me permitiu aliar a atividade física (a minha área profissional) ao projecto de voluntariado. Há a procura, por parte dos organizadores, de perceber os nossos pontos fortes e atribuir-nos tarefas mediante aquilo em que somos mais eficazes e produtivos. Cada um de nós esteve sempre à vontade para ajustar funções e assumir liderança somente naquilo em que nos sentíamos verdadeiramente confortáveis a fazer: tudo em prol das crianças e do que as permitia usufruir melhor das atividades.

Espaço onde foram dinamizadas as atividades com crianças

Apesar de nem todas as crianças falarem francês, todos se compreendiam. Quer fosse em francês, inglês ou por gestos, todos estavam incluídos nas brincadeiras, todos eram amigos e queriam jogar. Eram só crianças que se querem divertir, saltar, fazer acrobacias, malabarismo e cambalhotas; que são criativas e que gostam de ir à escola, que gostam de aprender. É uma missão que está longe de acabar, é certo, mas pelo menos sei que as crianças com quem estive estão um passinho mais integradas na comunidade de Tramelan. E foi bonito conhecer cada uma delas, decifrar as peculiaridades de cada uma. Foi aconchegante envolvê-las nos muitos abraços que me deram.

Paisagem de Tramelan

Expectamos sempre antes da partida, é inevitável. Como serão os que estarão connosco, qual será a receptividade das crianças, se estaremos à altura. É inevitável não criar expectativas, sonhar com o que nos trará a nossa ida. Pensamos nas mil variáveis que podem acontecer mas, garanto-vos, surgirão sempre momentos fora do roteiro: e quase sempre bons. Bem me avisaram que esta seria uma experiência que levaria para a vida, de tão inesquecível. E se foi!