A experiência da Joana na Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

Estas linhas que hoje escrevo são muito mais do que um relato de uma experiência de voluntariado internacional. São o relato do início de um processo de transformação e de auto conhecimento que só é permitido àqueles que tem coragem para destruir os “muros de Berlim” que nos ocupam a cabeça.

Descobri o Para Onde? através de uma publicação no Facebook e interessei-me pelo extraordinário trabalho de compilação e informação que dispunham para todos os interessados em fazer voluntariado internacional. Há coisas que tu sabes que vão acontecer na tua vida porque tens o livre arbítrio para as escolher e naquele dia eu decidi que queria fazer parte do projeto de voluntariado no Brasil, mais precisamente na Favela da Rocinha no Rio de Janeiro. Eu já lá tinha estado, de visita, e conhecia a paisagem, os cheiros, os olhares e as movimentações, sabia bem o que ia encontrar.

Tinha plena consciência que ia atravessar algumas dificuldades antes da partida e não me enganei. Decidi desafiar uma amiga, a Andreia, para me acompanhar. Sem hesitar ela aceitou e fizemos a candidatura juntas. Fomos aceites pela ONG local e estava dado o primeiro passo para a nossa grande aventura. Foi a partir desse momento que começaram a surgir as dificuldades.

Na minha cabeça só mantinha um pensamento: um problema de cada vez e tudo se há-de resolver. Comecei por pedir autorização no trabalho para estar de “férias” durante todo o mês. Apesar de algumas reticências iniciais e da tentativa de me demover, a minha chefe autorizou e agradeço-lhe por isso.

O segundo desafio foi comunicar à família a minha decisão, e naturalmente as reações não foram muito positivas. Os meus pais não entenderam a necessidade de fazer parte de um projeto desta natureza, argumentaram com a insegurança, criminalidade da favela, distância do país, tempo que íamos estar sem nos ver, etc. Um sem fim de argumentos que agora já nem me lembro. O meu pai perguntava-me todos os dias se eu já tinha desistido. Os nossos amigos chamavam-nos doidas, recordo-me que só duas pessoas me encorajaram. Não é fácil persistir e levar avante uma ideia quando tens “o mundo” contra ti. É nesta fase que é preciso ter força, por isso se vem da tua alma a vontade de fazer parte de um projeto desta natureza, persiste, insiste e nunca desistas. As dúvidas vêm, mas mantém-te firme que tudo sempre, se resolve pelo melhor.

Os homens são animais de hábitos e como tal, um mês depois da comunicação da notícia, os que comigo convivem, já se tinham habituado à ideia.

A ajuda do Para Onde? foi muito importante nesta fase em que nos surgiram imensas dúvidas. Sempre solicitas, respondiam aos e-mails com celeridade e tiveram imensa paciência connosco dada a quantidade de perguntas que fizemos.

A data chegou e no dia 01/05/2017 eu e a Andreia partimos para o Rio de Janeiro. Fomos acolhidas pela ONG local e depois de instaladas fomos fazer uma tour pela Favela. Eu conhecia bem aquela paisagem, mas viver lá… isso eu não sabia como era.

A minha história não se faz só de aspetos positivos, houve dificuldades, houve dúvidas se teríamos feito uma boa escolha, houve frustração inicial e tivemos problemas logísticos. Mas no fim da história … isso não foi muito importante. Ficou definido após reunião com a presidente da ONG que eu e a Andreia ficaríamos a fazer trabalho de manhã na creche e a tarde no reforço (o que em Portugal denominamos ATL).

Acreditas em amor à primeira vista? Foi isso que aconteceu connosco quando entramos na escolinha. As crianças são o melhor do mundo mesmo, e ainda agora consigo sentir os abraços os beijos e as gargalhadas de cada um deles. Tem noites que ainda sinto as mãos de algumas delas enroladas nas minhas. E eu? O que tinha para lhes dar além da minha presença? O princípio da ação e reação é infalível e quando tu recebes amor, dás amor. Tenho a certeza absoluta que não há amor mais genuíno que aquele, totalmente desinteressado cheio de ternura e com uma pitada de inocência, tão característica das crianças. Na escolinha aquilo que fazíamos era dar amor e dar uma ajuda às educadoras quando era necessário, fosse na hora do lanche, limpar os espaços, dar apoio nas várias atividades que os meninos tinham durante a manhã, enfim, fazer o que fosse necessário. Como diz a Andreia: “Por uns instantes, fecho os olhos e ouço a voz de cada um deles a chamar tiaaa”.

Na casa onde decorriam as atividades de reforço e alfabetização o nosso trabalho era de partilha, presença e disponibilidade com os jovens e adolescentes e preparação do lanche que a ONG distribuía gratuitamente a todos os alunos. A nossa presença era muito importante no sentido em que conseguíamos atrair aqueles jovens para conversas sobre o mundo, o país de onde vínhamos, as nossas profissões e um sem fim de temáticas que faziam os faziam abstrair-se da sua realidade. Sentia-me muito bem lá, mas o meu coração já bem molinho, derreteu quando uma das meninas me disse: ”Tia, eu amo você”.

Eu não gosto muito de despedidas, causa-me aperto, desconforto. Então saio sempre sem fazer muito barulho. Foi assim na Rocinha também. Falamos com os mais crescidos que estávamos de partida, trocámos contactos, despedimo-nos dos meninos com o olhar e pensamento na certeza que era só um “até já”.

Dias de trabalho com crianças e jovens, segundas-feiras à noite de samba, fins-de-semana de passeio, últimos 3 dias de praia, tudo isto sobre o olhar atento do Cristo que lá do alto tudo via, tudo sabia e nos abençoava todos os dias.