A experiência da Joana no Tarrafal

Ilha de Santiago, Cabo Verde. Tudo começou com um sonho. O que escrevo aqui, é apenas parte do que vivi, mas sem dúvida aquilo que foi mais importante: as pessoas que trouxe no coração comigo para Portugal.

O meu trabalho no centro prendia-se com ajudar as crianças nos trabalhos de casa e no estudo, sendo que passei a maior parte dos meus dias na sala de estudo. Uma sala com muita energia e com crianças que gostavam de aprender, mas mais do que aprender, também gostavam de ensinar, principalmente quando tinha a ver com assuntos da ilha da qual tanto se orgulham. Foi um desafio, como tudo na vida, porque já não me lembrava de muitas coisas e tive de reaprender para ensinar as crianças.

A sala de estudo é um “entra e sai” de crianças cheias de vida, que não aguentam muito tempo paradas, mas que assim que iniciamos uma tarefa de estudo, dão o seu melhor porque gostam de mostrar que sabem. No final de cada exercício eu exclamava um “boa!”, e fazia um high five com a criança que estava a ajudar e o seu sorriso orgulhoso era maravilhoso de se observar. Mas não estive nisto sozinha e não posso deixar de referir a minha assistente Romila. Uma miúda fenomenal do centro que me ajudou muitas vezes com o crioulo e a transmitir coisas às crianças que não entendiam tão bem o português. A Romila foi sem dúvida das maiores surpresas desta minha aventura, só alguns têm a sorte de estabelecer uma relação com ela e eu fui sem dúvida uma sortuda.

Por falar em surpresas, vou falar-vos da maior surpresa da minha vida, que por acaso, aconteceu no centro Delta Cultura. Quando embarquei rumo a Cabo verde sabia que ia passar o meu aniversário longe das pessoas mais importantes da minha vida, mas não foi por isso que tive menos amor ou menos alegria. No meu dia de aniversário depois de almoço chego ao centro e sou chamada para uma reunião na sala 5. Ora, vou eu rumo à sala sem desconfiar de nada. Para meu espanto, entro na sala e está cheia de crianças ao redor de um bolo de aniversário a cantarem-me os parabéns! Podia ter tido um dia mais emocionante? Tenho sérias dúvidas que não. A alegria com que me cantavam os parabéns e a forma como correram para mim e me abraçaram foi das melhores sensações que já tive na minha vida. Agradeço muito por isto às minhas colegas Cátia e Leonor, à Mariza e ao Florian.

Quando nos inscrevemos num programa de voluntariado que envolve crianças é muito difícil não criar expectativas sobre como serão. Posso dizer que estes meninos superaram todas as minhas expectativas. Crianças com uma alegria imensa, que estão sempre felizes, sempre com um sorriso para oferecer. Crianças unidas e que cuidam umas das outras como nunca vi igual. Crianças que cantam e dançam a toda a hora como mais ninguém o sabe fazer.

No centro há muitas crianças, mas há quatro que me marcaram em especial. Tenho de falar deles, porque foram o mais importante para mim nestes dois meses de voluntariado. O Marquinhos, o miúdo com o sorriso mais sincero que conheci. O Pataxinho, o menino mais bem educado e querido que me abraçava com todo o amor. O Olíver, o miúdo de 14 anos com mais maturidade com quem tive o prazer de conviver. A Zeina, a minha menina, a menina que todos os dias me enchia de alegria e de amor. A menina com quem cantava a música do Vento. A menina por quem tinha o maior amor. O Jasstom, o meu menino do coração, todos os dias penso nele e em toda a cumplicidade que tínhamos. O menino que me deu a terceira fatia do seu bolo de aniversário (para quem não sabe, em Cabo Verde o aniversariante dá as fatias do seu bolo por ordem de importância das pessoas), como não me emocionar? Obrigada a estes cinco meninos por terem tornado os meus dias mais felizes e terem feito tudo isto valer a pena.

Mas o voluntariado não se resumiu às crianças, conheci também outras pessoas que fizeram parte desta minha experiência e que continuarão a fazer parte da minha vida. Gilson, Jassica e Rita estas pessoas incríveis que merecem tudo de bom e que estarão para sempre comigo.

Tudo isto para vos mostrar que o voluntariado vale a pena, vale a pena a experiência e vale muito mais a pena as pessoas que dela trazemos. Mas o que vos quero transmitir não é só isto. Se têm o sonho de fazer voluntariado, façam. Se sentem necessidade de sair da vossa zona de conforto como eu tive, saiam. Eu sempre tive e poucos o sabiam, quando me inscrevi e fui aceite muitas pessoas ficaram admiradas. Ouvi algumas vezes dizerem-me que agora fazer voluntariado é moda. Será? Para mim foi um sonho tornado realidade. E é isto mesmo, os sonhos são para serem tornados realidade, independentemente dos esforços que façamos. O maior conselho que vos deixo é que sigam os vossos sonhos sem olharem para mais nada, porque só vivemos uma vez e são os nossos sonhos que comandam a nossa vida. Pensem na célebre frase “a vida está fora da nossa zona de conforto”. Arrisquem, não se vão arrepender.