A experiência da Inês em Itália

Faz hoje cinco dias que deixei Pratoni del Vivaro e é o primeiro em que me proponho escrever sem lágrimas e letra tremida sobre tudo aquilo que experienciei durante duas semanas o que, ainda que paradoxalmente, é tão pouco mas representa tanto… tanto em significado, em carinho, em humor e em comida!

Choro porque sinto saudades todos os dias. Saudades da “luta livre” do Massimiliano, do “Aiuto” do Abate, da força do Simone, do “Gianni” a cada cinco minutos, da preocupação do Valerio, da pergunta meteorológica do Alpino, das discussões do Dino, da tempestividade do Gianluca, do barafustar do Francesco, de um Marco e um Alessio sempre prontos a jogar cartas e até do “non si rutta” do Simone.

Choro porque me faz falta o odor a “pasta, cece e pomodoro” e a presença dos cavalos. Faz-me falta o apoio da Claudia, dançar com a Elena, discutir com o Melo e desafiar o Marco na cozinha. Faz-me falta nadar no lago com a Lola e a Matilda, o espírito livre do Islam, a disponibilidade do Antonio, a boa disposição (não pela manhã!) do Paolo, a ternura do Daniele, o silêncio do Lourenço e os olhos da Paola… mas também as explicações da Clara, o abraço da Valeria, o sorriso da Barbara, a amizade do Fabio e o “buongiorno” do outro Fabio… e de uma Marta sempre lá, sempre presente, sempre compreensiva, sempre nossa – sempre mãe.

Choro porque já não preciso de arregalar os olhos à espera que as palavras se decifrem, de fazer experiências artísticas ou dar uma “passeggiata in el boschi”, já não preciso de traduzir italiano para inglês para um Sinisa, ou de cozinhar com uma Kseniya… já não desabafo com uma Giorgia ou falo sem parar com uma Elisa.

Choro, incrédula, com tudo o que consegui construir com eles, sem filtros, sem convenções – só eu e eles, só eu e o que era, o que sou e o que represento. E mesmo assim, senti-me em família, senti-me em casa, como nem sempre me sinto em Portugal e isso é tão grande, tão importante, diz-me tanto… que me diluo em lágrimas, sem saber o que fazer com isto, tão intimo e tão do mundo. Tão meu e deles mas também tão vosso (Para Onde).

Acreditem quando escrevo que nos dias que se seguiram não vi em Roma nada grande o suficiente para me deixar boquiaberta ou sem palavras como o que vivi em Ciampacavallo, nem mesmo um Panteão, uma Basilica di San Pietro ou uma Basilica di Santo Stefano Rotondo al Celio.

Por isso vai! Vai sem pensar! Vai sem mãos e sem pés… atira-te de cabeça porque o voluntariado é uma experiência sem largura ou comprimento, sem tamanho.

Grazie mille per tutto (e Buon appetito!)