A experiência da Inês na Guiné-Bissau

Receber alguém que sabemos que só fica um mês como se ficasse para sempre era uma coisa que nunca me tinha passado pela cabeça, nem nunca pensei que fosse possível. Logo aqui estava enganada (para acrescentar a tantas outras coisas que me apercebi que estava redondamente enganada).  Fui recebida como se ficasse para sempre. Eu senti-me em casa a partir do momento em que aterrei em Bissau até hoje (e para sempre…). E todos sabiam que daí a um mês eu voltaria para Portugal e possivelmente nunca mais me viam na vida. Esta foi a primeira de muitas lições que esta experiência me ensinou. Independentemente do tempo que eu estaria ali a minha vida naquele momento era ali. Eu acordava ali, eu trabalhava ali, eu combinava com os meus amigos dali e eu ia deitar me ali. Se calhar foi esta forma de estar (a 200%) que me deixa hoje tão nostálgica e desolada por estar aqui, agora. Durante aquele mês acompanhou me muito um lema: “em Roma sê romano” e agora eu era guineense.
Aprendi que cada pessoa tem a sua história e obviamente não a tem escrita na testa e por isso é preciso conversar e conhecer para ficarmos a par da história. Muitas vezes julgamos aquilo que vemos sem nunca pensar no que está por trás. E há tanto por trás, muito mais do que aquilo que é visível. Cada pessoa que conheci tem uma história diferente e tão especial. E esta foi outra das grandes lições que o povo guineense me ensinou. Cada pessoa (para além inesquecível) é muito mais do que aquilo que aparenta e a única atitude que podemos ter é a de amigo e ouvinte (isto se queremos conhecer 1/10 de cada um).
Durante este mês acompanhei os alunos mais novos da escola. A turma do primeiro ano e pré—escolar em que muitos estavam na escola pela primeira vez. Sendo na escola o seu primeiro contacto com a língua portuguesa e tendo eu chegado no início do ano letivo as dificuldades de comunicação eram diárias. No entanto, nenhum dos alunos deixava de me abraçar ou sorrir, deixava de cantar músicas que eu ensinei ou deixava de me chamar para eu ajudar. Afinal a língua não era um obstáculo, era uma mais valia porque no fim do mês tanto eles como eu sabíamos uma língua nova. Nha bebés dixam apaxonado logo na purmero mumento.
Entre muitos conceitos de noção diferentes (por exemplo a noção de essencial) o único que não conseguimos discutir é o facto de o povo guineense não ter noção de como influenciou positivamente a minha vida e a minha forma de viver. Eu tentei deixar o que pude e tenho consciência de que aquilo que eu fiz ao longo de um mês não é comparável a tudo o que eu trouxe no meu coração e a tudo o que cada pessoa que conheci me deu. As diferenças culturais fizeram me crescer tanto que neste momento o maior desafio é lidar com a cultura portuguesa. Sinto muitas vezes (se calhar mais do que devia) que evoluímos num caminho errado. Não há nada que substitua a simplicidade e o modo de vida na Guiné é isso mesmo: simples.
Conheço a expressão “A beleza está na simplicidade” há muito tempo mas depois deste mês esta expressão ganhou vida. Nunca 4 palavras juntas fizeram tanto sentido. A beleza está efetivamente na simplicidade. Tudo o que é simples é mais puro e só na simplicidade podemos viver tudo com a maior das transparências. Num ambiente simples, sem futilidades a atrapalhar, parece que o nosso coração se abre e tudo entra sem obstáculos.
O ritmo lento de África é um dos fatores que ouvimos muito falar que se pode tornar um grande choque cultural. Na minha opinião, se tudo o que vivêssemos fosse vivido em câmara lenta podíamos aproveitar cada momento muito melhor. E infelizmente este mês não passou em câmara lenta, porque se tivesse passado ainda lá estaria e tudo seria mais fácil! Agora, estando cá, há uma coisa com a qual ainda estou aprender a lidar (e infelizmente creio que nunca vou aprender) chama-se saudades. É dos piores sentimentos que já senti (senão o pior). Saudades de cada pessoa, saudades de cada criança, saudades de cada sítio, saudades de cada conversa, saudades do calor, saudades de não ter saudades de Portugal (até dizia casa mas podia induzir a erro porque neste momento tenho 2 casas).
Antes de escrever este testemunho reli a carta de motivação que escrevi antes de ser aceite no programa e lá dizia (relativamente a uma viagem que fiz a São Tomé): “Num momento da minha vida em que tinha a certeza que era feliz percebi que posso ser ainda mais.” E agora rescrevo esta frase (e que bom que seria poder reescrevê-la todos os dias).
Há muito mais por conhecer, há muito mais para viver, somos 7 mil milhões e todos diferentes!