A Experiência da Inês na Guiné-Bissau

A minha ida como voluntária para a Guiné, não foi só a realização de um sonho, foram vários sonhos realizados ao mesmo tempo.

Vi e aprendi tantas coisas, que nunca pensei experienciar ou vivenciar. Claro que boas e más. Os primeiros dias são de choque, um choque cultural e até físico, grande, não vou mentir, mas depois tudo se transforma, se torna hábito, ficando claro e bonito. 

Ainda assim, é uma realidade muito diferente, são muitas culturas, muitas etnias, muitas formas de viver e formas diferentes de utilizar objetos, palavras ou métodos, é uma língua própria, são crianças que brincam na rua, e não com os telemóveis, são crianças que nos abraçam, nos dão beijinhos e alguns até amor. A perfeição não existe e estas mesmas crianças também nos vêm como benfeitores, quase como se tivéssemos obrigação de lhes dar qualquer coisa, e há formas de pensar e viver em algumas etnias, que nem que me virasse ao contrário seria capaz de compreender, aceito claro mas compreender é difícil. Vi coisas que pensei já não existirem, vi a mulher ainda muito submissa, ouvi muitas teorias de dominação do homem, vi um país sem governo durante muitos meses, políticas e leis que não fazem sentido em pleno século XXI, vi greves todas as semanas, falta de luz durante dias seguidos, vi funerais que são festas de 3 dias com muita música e animação, vi comerciantes a tentar pedir mais dinheiro aos “brancos” por um produto, vi doentes num hospital a dormir no chão e as minhas refeições foram grande parte das vezes arroz trinca.

Mas… 

Voltava já hoje! É um misto de emoções, sensações e experiências, que ainda não tenho palavras e acho que não vou ter, porque só vivendo se torna possível perceber. 

Tudo o que falei em cima, se torna tão relativo, quando sentimos que os nossos alunos gostam realmente de nós, quando temos a perfeita noção que o pouco que ensinamos vale muito, que os materiais que levamos para as aulas nunca tinham sido vistos ou tocados, quando temos em sala um professor tão ou mais entusiasmado que os alunos naquilo que estamos a dizer, quando conseguimos ajudar uma família ou crianças em reais situações de pobreza ou incapacidade, muito para além daquelas roupas, brinquedos ou materiais que trazemos de Portugal, quando adultos nos pedem ajuda para projetos que querem fazer acontecer, quando conseguimos criar relações com a comunidade (relações essas que algumas tenho a certeza que vão ser para sempre), quando todas as pessoas são simpáticas e atenciosas connosco, e o mais importante, quando percebemos que ali temos valor, ali somos de facto uma mais-valia para alguém, para o mundo.

Essa sensação, meu Deus, é tão boa, que coloca tudo o que é mau de lado e faz com que nem questione se podia ter melhor experiência de vida que esta. É indiscritível, mesmo. 

Mas para que esta experiência se tornasse tão positiva, foi muito importante ir com algumas dicas, alguns avisos ou alertas que nos foram passados pela Associação “Para Onde?” porque, é apenas a minha opinião, devemos sempre refletir bem antes de partir para um programa de voluntariado… há muita coisa no mundo diferente daquilo a que estamos habituados, que ainda não vimos ou conhecemos, não estamos preparados, existem diferentes pessoas e formas de gerir emoções, que nem sempre são fáceis de gerir, por isso, devemos ir preparados, muito preparados.

Em suma, a minha experiência na Guiné foi incrível, quase mágica, tornando claramente uma pessoa diferente e muito mais humana, com muito mais noção das disparidades do mundo, no bom e no mau sentido e, acima de tudo, com uma noção evidente que ainda há tanta coisa por fazer… Eu irei voltar e aconselho todo o mundo a participar num programa deste tipo, a arriscar e fazer a diferença, porque o que trazemos é tão enriquecedor que até o dinheiro gasto no programa, não custa nada!