A experiência da Filipa na Sérvia

Já passaram quase duas semanas desde que voltei a Portugal depois da minha primeira experiencia de voluntariado internacional e encontrar as palavras certas para descrever dias tão intensos é mais difícil do que pensara.

Desde o momento em que decidi que seria neste verão que iria concretizar este desejo antigo, foram várias as sensações, dúvidas e receios que passaram por mim, mas sempre com o entusiasmo em modo exponencial até ao tão aguardado dia em que parti sozinha para Sremski Karlovci, uma pequena cidade no norte da Sérvia.

Optei por um projeto relacionado com proteção ambiental, uma vez que é um tema que me interessa bastante a nível pessoal e, claro, porque eu adoro estar em contacto com a natureza. Nos últimos tempos, felizmente, os assuntos relacionados com proteção ambiental têm merecido maior atenção e vi também neste projeto uma oportunidade para conhecer de que forma as organizações não governamentais desenvolvem o seu trabalho. Assim, durante duas semanas fiz voluntariado no projeto Wetlands Conservation – Secret Life Of Birds. Este projeto está integrado na preservação da reserva natural Kovilj–Petrovaradin Wetlands, que acompanha uma parte das margens do rio Danúbio em Sremski Karlovci. Desde o ano de 2015 que vários voluntários têm colaborado na limpeza e manutenção desta área e na consciencialização da comunidade local para a preservação de uma zona tão rica em fauna e flora. Neste ano, além da continuidade destas atividades, o nosso grupo limpou uma área destinada à criação de uma praia fluvial, o que permitirá aumentar a oferta de ecoturismo nesta região. Com isto, pretende-se que os habitantes locais e turistas partilhem respeitosamente o espaço com as espécies protegidas, desfrutando das paisagens oferecidas.

Uma vez que se trata de um projeto que tem crescido não só devido ao trabalho dos voluntários que chegam de diferentes países, mas também da toda a equipa que trabalha no Ekološki Centar Radulovački, em Sremski Karlovci. Num dos últimos dias de trabalho, alguns elementos do governo sérvio e alguns canais da comunicação social estiveram no nosso workcamp. Com isto, tentaram perceber de que forma o trabalho tem evoluído, que recursos são necessários para concluir os trabalhos de ordenamento da reserva e de manutenção no futuro. Durante um dia, fomos ainda acompanhados por um programa de TV que pretendia filmar o dia-a-dia de um voluntário. Estou curiosa para ver o resultado final!

Além do trabalho que era realizado no período da manhã e que começava bem cedo devido às horas de calor, no período da tarde eram realizados workshops relacionados com proteção de fauna e flora em zonas como o rio Danúbio, desenvolvimento sustentável e num dos dias participámos também numa observação de aves na reserva na qual estávamos a trabalhar, o que me fez sentir uma bióloga da BBC de binóculos e livro na mão bastante entusiasmada!

Os almoços eram servidos num restaurante local, o que me permitiu conhecer a gastronomia do país e que deliciosa é a comida na Sérvia! E não fiquem surpreendidos se vos servirem um delicioso prato de Sarma ou de Pasulj mesmo que estejam temperaturas a rondar os 35 ºC. Tal como eles diziam, uma forma de nos refrescarmos por dentro é comer comidas quentes.

Durante estas duas semanas estivemos alojados numa escola primária local e partilhámos o espaço com outro workcamp, Arboretum, cujo trabalho decorria no jardim botânico mais antigo da Sérvia, o Royal Garden, e que jardim bonito e fresco! Como tal, desde o primeiro dia foram organizadas atividades para que todos nos conhecêssemos e nos sentíssemos à vontade entre todos, afinal iríamos (con)viver todos juntos durante algum tempo. Tal como uma família (uma grande família com vinte e quatro voluntários!), organizámo-nos em equipas cujas tarefas eram preparar o pequeno-almoço e fazer o jantar e assegurar a limpeza diária de todas as divisões. Parecem tarefas banais, mas nestes momentos colocámos novamente em prática as aprendizagens acerca de trabalho de equipa, partilha de ideias e gestão de tempo, mas aplicadas às tarefas domésticas.

De forma a darmos a conhecer a evolução do trabalho desenvolvido pelos dois grupos de voluntários à comunidade local, o último dia de trabalho foi reservado para divulgação na rua, convidando todos os que se quisessem juntar a nós a participar em algumas atividades preparadas por nós.

Entre tantas atividades, também tivemos momentos de lazer. Um dos dias foi passado numa pequena ilha selvagem do rio Danúbio. Apesar de bastante frequentado pelos habitantes locais e turistas, o local está muito bem cuidado e bastante nativo, o que torna a ilha ainda mais encantadora. Fomos a Novi Sad, a segunda maior cidade da Sérvia, onde jantámos todos juntos depois de assistirmos ao pôr-do-sol na fortaleza da cidade. Num outro dia, acordámos bem cedo para voltarmos a esta cidade e irmos ao Flea Market. Aqui, pudemos sentir o estilo de vida sérvio num dia de mercado e até comer uma Pljeskavica gigante às 10h da manhã, afinal já estávamos acordados há mais de três horas. Fizemos também uma prova de vinhos, não estivéssemos nós a trabalhar no local onde é produzido o tão famoso vinho Bermet. Os mais resistentes ainda provaram Rakija, afinal a Sérvia é o maior produtor do mundo desta bebida.

Em relação a todos os voluntários que conheci nesta aventura, e sendo o nosso grupo tão grande, é natural que se criem laços mais fortes com uns do que com outros, mas agradeço todos os momentos de partilha, sem exceção. E aquela pessoa que logo no primeiro dia pode ser menos agradável contigo, ao fim de duas semanas pode ser tua grande amiga. Havia uma grande diversidade de nacionalidades, assim como de faixas etárias (dos 19 aos 40 anos), mas em nenhuma circunstância existiram barreiras devido às diferenças culturais ou de idade. E todos eles sabem que serão muito bem recebidos em Portugal!

Apesar de serem “apenas” duas semanas, na verdade pareceram meses. Os dias são tão preenchidos, há tanto a aprender, a absorver, a conhecer, a fazer e a querer fazer, que não nos importamos de abdicar de horas de descanso e de sono para não perdermos nada. É uma sensação ótima saber que contribuí para a continuidade de um projeto tão importante e rico, numa cidade tão cuidada como é Sremski Karlovci. Os dias passados em Belgrado depois de terminar o voluntariado reforçaram mais a opinião de que a Sérvia é muito mais do que as questões políticas que nós conhecemos, por isso não hesitem em visitar este país caso pretendam viajar pelos Balcãs.

Quero também agradecer m-u-i-t-o à Marta e à Inês, do Para Onde?, por todo o seu trabalho, dedicação e orientação que prestaram desde o primeiro contacto até à data. Apesar de a minha formação pré-partida ter sido à distância, em momento algum me senti penalizada por causa disso, obrigada por tudo!

Por fim, quero dizer a todos aqueles que gostavam de fazer voluntariado, mas ainda não tiveram coragem de seguir em frente: vão! Independentemente da área, do local e de tudo o que as pessoas que estão à vossa volta vos possam dizer, não hesitem. Se sentem que poderão contribuir (mesmo que só um bocadinho) para um mundo melhor e que a nível pessoal se sentirão mais realizados, candidatem-se já!