Fábio, Santo Antão 🇨🇻

A minha chegada a Santo Antão ficou marcada pela receção carnavalesca totalmente inesperada. Duas horas depois de chegar estava eu a pintar o corpo todo de preto, com pó de carvão, e a vestir uma saia de corda para entrar no desfile da Mendinga. Acabei por conhecer já alguns dos meninos com quem iria estar durante a semana, e que bem que soube eles já saberem o meu nome na primeira vez que se dirigiram a mim, foi uma sensação tão boa!

A primeira experiência que tive com os idosos foi muito boa, ainda um pouco tímido, a analisar toda aquela novidade, mas sempre muito bem recebido. Todos eles emanam alegria, dão-nos um sorriso por qualquer motivo. Seguiu-se o Espaço Jovem e o convívio com as crianças.

É incrível a forma como elas nos recebem, como se já nos conhecessem há anos. Timidez não é uma palavra usada naquele local. A forma como nos dão a mão e nos chamam para brincar deixa-nos de coração cheio, quase sem saber como reagir.

Levei um jogo para eles, de atividade física, e foi muito reconfortante ver o sorriso e a vontade de jogar deles, era novidade, e só o olhar deles nos dá toda a vontade deste mundo de viver.

Treinámos também Karaté, sendo já uma das ideias que levei para o projeto. Quando lá cheguei, alguns já sabiam que eu fazia Karaté, e como era de esperar, super curiosos a pedir para que lhes ensinasse. Esse dia chegou, e o ar de estupefação na cara deles foi impagável. Não porque era difícil, pelo contrário, mas pela novidade em si. Foi muito reconfortante ir embora e ver o entusiasmo que eles tinham a treinar os exercícios uns com os outros na rua, no passeio, na praia. Sentir que lhes passei alguma coisa, por pouco que fosse, que lhes trouxesse alegria.

Tive ainda a oportunidade de ir a alguns dos centros Multiusos, fora de Porto Novo, mais para o interior da ilha. E que realidade! Perceber a falta de iniciativa que há para com os jovens nestas localidades e pelos responsáveis dos espaços; perceber que há crianças que andam todos os dias 1 hora a pé para chegar à escola; perceber que há centros que apenas dispõem de mesas, sofás e uma televisão, sendo poucos ou nenhuns os materiais educativos e didáticos; perceber que a falta de água nestas zonas implica ter mais ou menos comida na mesa no final do dia; perceber que apesar de todas estas dificuldades elas são felizes, e para descrever isto não há palavras.

Atrevo-me a dizer que este pedacinho de terra é único, nas suas paisagens, nas suas gentes e na sua cultura. O facto de toda a gente nos dizer bom dia na rua transporta-nos para uma realidade diferente, estranha inicialmente, e tão reconfortante finalmente. Olhar para estes meninos, ver como se divertem na praia, como são tão felizes sem uns calções de banho e uma toalha, e perceber que nós, ocidentais, ao invés, valorizamos tanto esse ponto. Perceber a humildade deles, sabendo que mesmo precisando de mais (seja dinheiro ou comida), não pedem, não enganam, e não mentem. Perceber que existe ainda esperança na bondade, sinceridade e transparência das pessoas daquela terra. Ficar feliz por poder ter contribuído para ver um sorriso a mais na cara deles, um abraço a mais, um miminho a mais. O único erro que cometi foi ter ficado apenas 15 dias, tão pouco, passou a voar. Trago na memória as caras de todos eles, e venho com a esperança de ter sido uma mais valia na vida de todos eles, esperando um dia voltar.