A experiência da Cláudia na Palestina

Naquelas duas semanas no West Bank, houve imensos confrontos entre israelitas e palestinianos. Os piores em Jerusalém, mas também em Belém, Hebron, Gaza. Sempre Gaza. Não mencionei nunca nenhum para não preocupar corações distantes e, provavelmente, esses corações também não ouviram falar deles porque não mereceram destaque nas notícias.

Naquelas duas semanas estive em Jerusalém, em Belém e em Hebron e, felizmente, não assisti a qualquer confronto porque não calhou. Mas assisti a demasiados atos de violência. Vivi rodeada de arames farpados capazes de romper gargantas de revolta. Ouvi histórias de medo em vozes infantis. Vi os drones e os soldados armados até aos dentes com armas apontadas a cada passo em falso. Acordei de manhã bem cedo com o som das máquinas que constroem a pressão dos bairros em redor. Percorri todos os dias um novo caminho, contornei um novo buraco, saltei um novo calhau no meio da estrada bloqueada. Contei cada gota de água que gastei porque a única que há vem da chuva e aqui quase não chove. Vi um pôr do sol a cada dia mais bonito que no dia anterior a tapar de luz a ocupação de cimento e check points. Pus as mãos num muro alto e frio que divide famílias. Bebi chá servido por quem continua a abrir lojas em ruas desertas e proibidas todas as manhãs. Baloicei-me empurrada pelo vento que se ouve naquele lugar de paz e resiliência. Corri caminhos onde pequenas árvores tentam ocupar as raízes das centenas que dali foram arrancadas. Cantei muito alto para que a alegria daquela música fizesse eco lá longe. Tremi com o som das sirenes e gelei com esta guerra fria que se respira no West Bank.

Sorri com quem me sorriu tão sincero, com tanta esperança de que tudo vai ser diferente um dia. Abracei braços que não baixam, e senti-lhes a força e a atitude pacífica de todos os dias para que aqueles lugares não se venham a tornar mais uma Faixa de Gaza. Era tão fácil. Foram 15 dias. Para eles é a vida toda.

E ao fim de duas semanas é a sinceridade e a pureza delas que me desarmam. Elas que, a cada dia, procuram as caras que o instinto já reconhece e as faz sentir mais seguras. Elas que correm para ti porque é ao teu lado que se sentem estrelas brilhantes. Mostro-lhes sempre que são. E são elas que me abraçam e dizem como gostam de mim, porque gostar é assim simples. Gostar são as brincadeiras, os abraços, as histórias, a curiosidade tão inocente, a beleza que vêem nos pormenores, a confiança que cresce todos os dias um bocadinho. Gostar é mostrar sem medo. São as horas que perdem a tentar fazer-me falar árabe perfeitamente, as jóias com que me enfeitam, os desenhos que levo, os cuidados que nos confiam. Gostar é ter saudades e são as lágrimas espontâneas, confusas entre a euforia que festejamos e sentimos por igual.

São elas, as crianças, o mais bonito e o motivo para vir sempre. O motivo para ir sempre melhor. Ao fim de duas semanas tão duras e tão intensas, partir é acreditar que o futuro vai cuidar delas e dos seus sonhos por mim. Que vai fazer deste gostar uma liberdade mais completa.