A Experiência da Clara na Guiné

Desde há muito tempo que tencionava ter uma experiência de voluntariado internacional com a única ressalva de que teria de ser num local onde fosse possível realmente ter algum impacto. A escolha da Guiné foi apenas um mero acaso. Hoje sei que foi o acaso mais bonito que podia ter e não podia estar mais feliz com essa escolha!

No entanto, nem tudo foi fácil. Falando da minha experiência, os primeiros dias foram dias difíceis: dias de adaptação, de alguma frustração e, às vezes, até de revolta. O choque de realidades existe e é algo que só se consegue estar preparado até se vivenciar. A pobreza, a falta de cuidados de saúde, a falta de escolaridade e uma lista de muitas outras coisas são, infelizmente, a realidade que se vivencia lá. E por muito que achemos que conseguimos ajudar e mudar tudo, é simplesmente impossível. E essa foi a primeira lição que aprendi na Guiné. Não é possível mudar o mundo, mas se for possível ajudar o mínimo ou fazer uma pessoa um bocadinho mais feliz então já valeu totalmente a pena!
A adaptação leva o seu tempo mas quando menos se espera já nos sentimos em casa. É uma mudança tão radical e tão repentina que é até difícil de explicar: num momento sentimo-nos estranhos, numa realidade completamente oposta à nossa, mas de um momento para o outro passa a ser a nossa realidade também.

Enquanto lá estive dei aulas à turma do 2º ano durante as manhãs com a professora Mariama e durante a tarde passava mais tempo a brincar com os nossos vizinhos e com os meninos do bairro. Durante este mês voltei a ser criança: ensinaram-me crioulo, dançamos, jogamos futebol, à macaca e a um monte de outras coisas, rimos, choramos e fomos muito, muito felizes. Tudo é um pretexto para brincadeira e é tão fácil ser feliz por lá!

A simplicidade com que vivem e a facilidade com que encaram a vida mesmo com todas as adversidades ensina-nos tanto… Na realidade, fui para lá para ensinar, mas foram eles que me ensinaram muito! Viver na Guiné é aprender que para se ser feliz não há barreiras, nem impedimentos; é aprender que o que realmente importa são as pequenas coisas; é dar valor ao que é realmente essencial e deixar de lado tudo o que é secundário; é dar o que se tem e o que não se tem; é sentirmo-nos um bocadinho em casa todos os dias. Durante este mês aprendi que não há limites para o amor e que não há nada mais bonito do que sermos autênticos e genuínos como só eles me mostraram ser. Durante este mês eu fui genuinamente feliz e sou tão grata por isso (e por tudo o que eles me ensinaram)! Não há como não ser feliz quando se está rodeada de pessoas tão incríveis e com um coração tão bom como o deles! São poucas as certezas que tenho, mas uma delas é que estes miúdos levo-os comigo para a vida! Não sei se eles algum dia vão saber o quão especiais são para mim e o quanto me marcaram em tão pouco tempo…

Voltar da Guiné foi muito, muito mais difícil do que alguma vez imaginei. Estar de volta a casa é ter o coração apertadinho e a transbordar de saudade todos os dias.

Obrigada a todos por terem feito desta a melhor experiência da minha vida! Obrigada do fundo do coração à Ana, Rosa e Maria Inês por terem sido uma companhia incrível; aos meus alunos e aos meus miúdos por me terem mostrado o quão fácil é ser feliz e por me encherem de amor de manhã à noite; aos amigos que fiz por lá e que levo comigo para a vida; ao Para Onde? por me ter permitido ter esta experiência.

Uma parte de mim ficou lá para sempre! Bissau, vemo-nos em breve! ☺