A experiência da Catarina em Zanzibar

Desde o dia que decidi embarcar nesta aventura até o dia de partida foi tudo muito rápido. Na verdade, tudo em si aconteceu demasiado rápido.

Já tinha na cabeça fazer esta experiência há algum tempo, até que um dia apareceu-me no Facebook o “Para Onde” e não hesitei. Trocámos uns emails, e passado uns dias estava a marcar voo.

Sem qualquer noção do que vinha aí, embarquei. Na realidade acho que mesmo quando já estava no voo, ainda não estava em mim, estava com alguns nervos, mas por outro lado sentia-me bastante relaxada e segura, parecia-me uma viagem “normal” para um sítio que eu conhecia e estava familiarizada.

A verdade é que não podia estar mais errada e tão certa ao mesmo tempo. Errada porque não era de todo um sítio que conhecesse, era uma cultura completamente diferente da nossa: hábitos, maneiras de pensar, cheiros, maneiras de viver, definições de riqueza/pobreza, horários, um ritmo muito diferente do nosso (em Zanzibar é tudo muito pole pole – devagar devagar)… Mas por outro lado estava tão certa relativamente a sentir-me segura, confiante pois iria para um local em que me iria sentir bem, que fosse bem-recebida. E este sentimento veio assim que pus os pés em Zanzibar e fui recebida pelo Mr. Idi da associação que iria colaborar, que após ter estado 3 horas à minha espera devido a atrasos de voos e demoras no visto e eu me ter logo desculpado por tê-lo feito esperar tanto tempo, me recebeu com um abraço, um sorriso na cara e me disse “Hakuna Matata, We are Family here,  We are here for you” – neste momento senti-me em casa.

Estive perto de 3 semanas em Zanzibar, com vários projectos desde remodelação de escolas, pinturas, brincadeiras com crianças dos 2 aos 18 anos, workshops com universitários, organização de actividades com crianças e pais, formação de líderes de associações, aulas de inglês, aulas individuais… e não há palavras para descrever o amor, a humildade, a simplicidade.

Em Portugal, toda a gente me perguntava se havia muita pobreza e eu respondia sempre a mesma coisa: “A Pobreza e a riqueza são muito relativas” – aqueles miúdos vestiam a mesma roupa todos os dias durante uma semana, sujas e com rasgões, não andavam com as novas tendências, brinquedos quase nem vê-los e luxos nenhuns, mas davam-nos o seu maior sorriso, partilhavam connosco as suas melhores histórias desde as coisas grandes às coisas mais pequenas, onde mostravam a sua maneira de ser: pessoas simples, com muito amor, entusiasmados, motivados a aprender, ansiosos para que alguém lhes desse uma oportunidade, lhes ensinasse algo (fosse o que fosse) – o que eles queriam era aprender, chegavam sempre com os seus caderninhos a perguntar novas palavras, novas cores, novos adjetivos…Pessoas criativas, de uma garrafa de plástico faziam carros – desafio-vos a ver se conseguem ter tal criatividade. São pessoas muitos ricas em amor e felicidade, que me ensinaram e me inspiram muito, relembraram-me certos valores e ensinaram-me novos.

No final, existiu aquela sensação de que aquela é a realidade deles, e que eu iria embora e tudo voltaria ao normal, e os últimos dias foram vividos com alguma revolta. Mas hoje sei que fiz a diferença na vida de algumas pessoas quando passado mais de um mês me enviam fotografias de coisas que falámos, me enviam a opinião deles sobre livros que lhes dei, me enviam fotografias das crianças a fazer actividades que fazíamos… e para isto não há palavras que descrevam este sentimento.

Conheci pessoas que sei que não vou esquecer, saber as histórias de cada um deles é marcante, mantemos contacto e sei que um dia voltarei.

Não podemos mudar o mundo todo, mas podemos mudar uma pequena parcela. Se estão, nem que seja só um bocadinho, curiosos por ter uma experiencia de voluntariado, não hesitem e vão.

Vão vocês próprios, “nus” de todos os egos e ideais, sejam simplesmente vocês, levem amor, vontade de ouvir, de ensinar e um sorriso na cara, e voltarão muito mais ricos.