Catarina, São Tomé 🇸🇹

Passaram precisamente três semanas desde que voltei daquele pedaço mágico de Terra. É difícil descrever uma experiência que me marcou tanto como foi o caso desta. As palavras não parecem suficientes e parecem nunca descrever na totalidade os sentimentos e sensações associadas aos momentos que passamos juntos.

Continua a ser estranho acordar sem as músicas preferidas delas no volume máximo, sem o calor desta ilha tão verde e maravilhosa, sem abrir a janela e poder vê-los, cheios de energia, super preparados para um novo dia ou simplesmente sentir aquela casinha azul silenciosa (algo raro) e observar as meninas mais velhas a cuidar das suas roupas e das roupas dos mais pequenos, ver o espírito diário de entreajuda.

Os dias passam e as saudades apertam. Saudades das coisas mais simples, dos abraços de manhã, à tarde, à noite, ao chegar a casa, ao sair de casa…dos beijinhos, de me despedir com o “xaué” e de começar o dia com o “quero tranxá oxê”. De quando batiam à porta mil vezes só para dizer olá, fazer uma serenata ou só mesmo para conversar. Das descobertas, das brincadeiras, até do compasso de espera que precedia as horas de estudo e de quando ficavam rabugentos . De dizermos coisas sem sentido, dos passeios, das manhãs no mar, dos risos e dos desabafos, de os ter por perto!

Tentei aterrar neste país pelo qual já estava apaixonada, com a mente limpa, sem preocupações, sem expectativas. Mal pus um pé naquela que ia ser a nossa casa percebi de imediato a intensidade da experiência que me esperava. Apesar de já conhecer um pouco o país, a cultura, alguma da sua história e de saber as suas fragilidades, percebi naquele momento que não conhecia nada e mais do que isso, fui percebendo ao longo dos dias que ainda me estava a conhecer e quão incrível é a capacidade que o ser humano tem de se superar, de se adaptar e de se transformar e que é um processo que pode durar a vida toda.

Viver dois meses tão perto de quem dá valor a tão pouco mudou-me. Não se volta a ser a mesma pessoa. A vida sim, volta à normalidade. Voltei ao conforto, aos pequenos luxos, aos dias frenéticos , às distrações e afazeres diários mas um bocadinho de mim ficou lá em cada um deles e eles vieram todos comigo. Cada um com a sua personalidade, história de vida, com o seu carácter, com as suas inseguranças e medos e com os seus sonhos, mesmo que escondidos. Era nesse ponto que nos encontrávamos . Sabíamos que por mais passageira que fosse a minha estadia ali, por mais que não conseguíssemos expressar tudo o que queríamos, ou que nos irritássemos às vezes, o laço que nos unia mantinha-se forte. Estava lá sempre para eles, estavam lá sempre para mim! E tantas são as histórias que temos para contar! Espero ter deixado lá amor, afeto, espero que tenham percebido que nada é impossível, que se se esforçarem realmente podem ser o que quiserem, espero que continuem a plantar fora e dentro deles mesmos, bons sentimentos, de amizade, de respeito pela natureza e pelos animais, de honestidade e que confiem uns nos outros e neles próprios.

Não há um dia que não pense neles, não há um dia que não me lembre daqueles olhares brilhantes e sinceros e dos gestos simples de quem partilha o pouco que tem e que é tanto! Não há um único dia que não pense em São Tomé. Estarei para sempre grata por esta experiência e por tudo o que me ensinou.