A experiência da Catarina no Quénia

Não foi fácil o primeiro impacto. Tudo era diferente do que conhecia até então: os cheiros, as ruas, as estradas, os edifícios, a temperatura, a forma como as pessoas se vestiam, o modo de comunicação entre as mesmas, a agitação da cidade. Era tudo tão diferente. A informação que recebi quando cheguei a Nairobi foi tanta que me limitei a seguir o director do projecto até ao autocarro que nos iria levar para o próximo destino, sem conseguir emitir uma única palavra. No caminho, fui observando os mercados à beira da estrada, as vacas a pastar, as crianças a ajudarem os pais no transporte de cargas, os cães deitados a apanharem sol e aquelas árvores magníficas que se erguiam no solo que, até então, só tinha visto nos documentários do National Geographic.

À medida que avançávamos em direcção ao sul, a densidade populacional ia diminuindo progressivamente até ter chegado a um sítio calmo e tranquilo que me aqueceu a alma – Kiburanga. Fui recebida pela minha “família temporária” e por algumas crianças e mulheres da comunidade que me deram as boas vindas recheadas de sorrisos curiosos, abraços envergonhados e danças felizes ao som do bater de um pau num simples balde com um ritmo estonteante que caracteriza aquele povo.

Depois de ter almoçado o maravilhoso arroz com feijão, cozinhado pela matriarca da família, MamaDeo, levaram-me a conhecer a escola construída através do projecto em vigor na comunidade – Kiburanga Woman – era uma escola simples, com o essencial para garantir o conforto dos seus alunos e professores (voluntários) e que acolhia também uma série de outros membros no seu amplo espaço exterior que, durante o dia, se juntavam para discutir assuntos em comum, jogar à bola, brincar às escondidas, fazer colares e pulseiras e uma série de outras atividades.

Na escola da comunidade tive o privilégio, juntamente com toda a equipa (composta pelo diretor Mike, pelo professor voluntário Silvestre, pela voluntária Marina e por um outro voluntário local Matiko) de participar em atividades de sensibilização sobre três dos principais temas que ali me levavam – Mutilação Genital Feminina, Nutrição Infantil e Higiene (como devem imaginar, foi extremamente interessante e enriquecedor o confronto entre a teoria que conhecemos e a cultura local :))

Foram várias as atividades desenvolvidas na área da saúde, desde visitas às famílias da comunidade com o objectivo de conhecer as diversas necessidades de cada uma, realização de jogos didácticos, à execução de uma “clínica móvel”.

Os tempos livres eram preenchidos com muita música, dança, alegria, boa energia e com os deliciosos abraços e miminhos com que os pequenos nos brindavam a toda a hora.

Devido ao elevado número de crianças órfãs, decidimos complementar o projecto – Kiburanga Woman – com a construção de um orfanato que se encontra neste momento em processo de conclusão.

Agradeço muito ao Para Onde? por todo o apoio extraordinário, desde o momento em que enviei a minha candidatura até ao momento que regressei a Portugal e por me ter ajudado a concretizar este sonho. Obrigada Inês e Marta por serem as pessoas excepcionais que são!! Agradeço também, muito, a toda a família que me acolheu em Kiburanga e que aqueceu o meu coração.

O essencial é invisível aos olhos”…pela primeira vez tive perante condições de conforto mínimas e senti o meu coração mais preenchido do que nunca. Uma felicidade crua e pura como nunca tinha sentido na minha vida – por mais que tente, nunca conseguirei pôr por palavras a quantidade de amor que senti.

– Não há dia que não me lembre daqueles olhares doces e traquinas, daqueles abraços ternurentos, daquela terra mágica, da pureza daquele povo, das músicas alegres e daquele cheiro tão característico a terra molhada depois das chuvas – aconselho, mas só a quem tiver a coragem de se deixar sentir…de deixar um bocadinho de si em cada uma daquelas pessoas, em cada canto e recanto daquela terra, porque quando se vai, não se volta igual.

Muito obrigada:’)