A experiência da Catarina e da Marta na Ilha da Boavista, CV

Há uma ilha em Cabo Verde feita de paisagens áridas, praias desertas, a perder de vista, rodeada de um mar cristalino e cálido. Há um tempo que não tem matéria, corre lento, e a pressa não tem nome de coisa alguma. Há gente que vive ao compasso da vida sem stress e é prova viva desse sentimento cabo-verdiano que se dá pelo nome de “morabeza”.

E podia ser assim o início da nossa história na ilha de BoaVista.

Aterramos no aeroporto de Rabil dia 2 Setembro. O calor colava-se ao corpo enquanto os nossos olhos tentavam captar tudo o que nos rodeava. O Lamine (presidente da associação) estava à nossa espera. Depois das primeiras palavras e de um abraço de motivação e confiança partimos para a nossa aventura.

Primeira paragem – o Bairro onde íamos trabalhar – Bairro da Boa Esperança (ou “ A Barraca”, como a maioria das pessoas lhe chama).

 

Custa respirar. Há um arrepio no corpo e um nó no estômago. O calor faz-se sentir cada vez mais e o cheiro nauseabundo, intensificado pelas chuvas, confronta-nos. Percorremos ruas de terra, com casas feitas de pedra, plástico e ferro. Ruas cheias de pessoas de diferentes nacionalidades, que imprimiam no olhar a esperança que dá nome ao bairro e nos saudavam com um “tudu dretu”, como sempre tivéssemos pertencido ali.

Há absurdos que doem quando damos de caras com realidades que não a nossa. Ficamos com uma espécie de vergonha muda dos recursos gigantescos que temos na nossa vida, muitos bem acima das necessidades e, mesmo assim, sentimo-nos sempre em falta. Ali tudo é escasso…a luz, a água, os saneamentos, as condições de saúde, a educação…tudo menos o amor, a gratidão e a esperança. É disso que o povo se alimenta, juntando aos temperos a alegria do funaná e da morna nas noites quentes no Grill Sirocco e no Café Kriola.

“O Xururuca”. Assim se chama o jardim-de-infância onde trabalhámos. O nome nasceu de uma história antiga, onde o mundo da fantasia e da imaginação ajudou uma criança a encontrar a alegria e o carinho que tornam o mundo um lugar melhor.

É isso que acontece no jardim, ou na casa, como as crianças lhe chamam…e sentem. Há imaginação, há sonho, há amor, há quem cuida com os recursos que tem para tornar a realidade um lugar melhor e feliz.

As crianças sorriem, abraçam, saltam e ecoam “tia, tia, tia” a toda a hora. Foram assim os nossos dias no jardim. Há um lado selvagem e livre no pé descalço daquelas crianças que torna a tarefa de mante-los numa sala, concentrados numa atividade, no mínimo, desafiador. Mas a frustração e cansaço dos primeiros dias de não conseguir concluir uma tarefa ou orientá-los como queríamos deu lugar ao folgo apaziguador dos abraços e das gargalhadas e ao lado positivo do desafio diário. Desporto, ATL de Leitura, Inglês, Teatro, Ciência, Artes plásticas, Culinária, Cinema preencheram as atividades, pelas salas dos 2 aos 5 anos.

O que ali vivemos e aprendemos juntas vai ficar nosso para sempre. Foi gostar sem preconceito, partilha sem arrogância e carinho sem caridade. Vai deixar aquela saudade doce que dá à esperança um nome sentido. Os beijos da Débora, a energia da Lalita, o “despacho” da Verónica, as tolices do Sandro, os sorrisos malandros e rasgados do Adilson e do Samuel, a doçura da Taissa e da Gabi (não cabem aqui todos) deram-nos mais do que aquilo que lhes conseguimos dar. Mais ainda. As professoras – a Sabrina, a Lezita, a Lucy, – o Lamine, o Para-Onde e todas as outras pessoas com as quais nos cruzamos deram-nos a oportunidade de nos superarmos e sermos melhores de uma forma divertida e genuína.

Não sabemos se um dia os nossos caminhos se irão voltar a cruzar … mas regressamos com a certeza que daquele lugar os maiores souvenirs que trouxemos foram os sorrisos com tanta coisa lá dentro, os abraços preenchidos e o íman que vamos colar no frigorífico são as memórias de um mês inesquecivelmente feliz.