A experiência da Carolina em Caraíva

Acabada de chegar a Portugal, e já com uma vontade enorme de voltar.

Sem saber como exprimir por palavras uma vivência como esta, que digo com todas as certezas que foi a melhor e mais rica experiência da minha vida, garanto-vos que cada momento, cada pessoa, cada abraço, cada criança, cada lugar, cada sorriso… tudo valeu a pena!

Desde a primeira vez que pisei Caraíva percebi que este projeto tinha tudo para dar certo. Mal cheguei fui super bem recebida, tanto pela dona da casa em que fiquei durante aqueles dois meses, como pelas pessoas da vila, as professoras e as crianças da ONG. Todos nos tratavam tão bem que não tardou a sentir-me em casa. Tinha chegado, sem dúvida, a um lugar com uma energia e uma “magia” incrível.

Através deste projeto tive a oportunidade de conhecer o lugar mais maravilhoso em que já estive. Tive a oportunidade de conhecer um povo incrível, uma cultura totalmente diferente da minha e de ajudar crianças espetaculares. Todos os dias quando chegava à ONG e recebia aqueles abraços tão fortes e genuínos, quando via o sorriso daquelas crianças para nós, quando ouvia um “Carol, eu te amo”, “Não vá embora não!”, “Pode ficar em minha casa.”, “Eu gosto muito muito de você”, percebia o quão sortuda eu sou por estar a vivenciar uma experiência como esta.

As crianças brincam na rua, sobem as árvores por diversos motivos: para pegar fruta, para se esconderem quando estão a brincar ou simplesmente porque querem, porque é assim que elas vivem e é assim que são felizes. Elas correm até nós em troca de um abraço, de um colo e/ou de um carinho, e nós fazíamos exatamente o mesmo. Todas eram diferentes umas das outras: umas mais rebeldes, outras mais sossegadas, umas mais tímidas e outras mais extrovertidas, mas todas, sem exceção, têm um coração enorme, cheio de amor pronto para dar e para receber.

Quando me meti neste projeto nunca tinha ouvido falar de Caraíva, pelo que não fazia ideia para onde é que ia, mas hoje sei que a melhor coisa que fiz foi aceitar este desafio. Fui de coração aberto, pronta para dar tudo o que fosse preciso e para receber tudo o que me esperava. Naqueles dois meses aprendi e recebi tanta coisa, incluindo que a frase “Voluntariado mais que dar é receber” é o clichê mais verdadeiro que existe. Aprendi que um simples “Bom dia!” seguido de um sorriso de alguém que não conheço pode alegrar o nosso dia. (Re)aprendi a valorizar as mais pequenas coisas da vida, a ser ainda mais grata por tudo o que tenho e a aproveitar cada momento como se fosse o último. Ensinaram-me também que quanto mais simples é a vida, mais fácil é o riso e mais leve é a alma e ainda que “quanto mais salgada a água, mais doce é a vida!”.

Caraíva é tudo isto, é alegria constante, é o pé na areia, é o coração tranquilo, é podermos ser nós mesmos sem preocupação. Caraíva é o céu estrelado, é o pôr-do-sol no rio que a cada dia que passa fica ainda mais bonito que o anterior. Caraíva é as ruas em areia, é ter o pé preto desde as 7h da manhã, é o nascer da lua no mar e o “Bom dia!” de toda a gente e o sorriso contagiante. É a energia ir abaixo e não sabermos quando há de voltar. É descobrir frutas e animais novos todos os dias. É não ter regra e deixarmo-nos pura e simplesmente confiar no que há por vir. Caraíva é uma terra bem pequenina, mas repleta de gente maravilhosa com um coração gigante.

Esta vila preenche-nos com um monte de sentimentos que se misturam todos dentro de nós e a única certeza com que ficamos é que fizemos a escolha ao termos partido nesta aventura. E na hora de ir embora dá-se um aperto enorme no coração, pois a vontade de ficar toma proporções que já mais pensamos que fosse possível. Trago comigo memórias espetaculares, grata por todo o amor que recebi de cada criança e de cada pessoa que conheci, incluindo dos voluntários que se tornam grandes amigos.

Inicialmente eu iria ficar apenas um mês, o que parece muito, mas quando já estava lá percebi que um mês é muito pouco para este tipo de voluntariado, para conhecer cada criança a fundo e para receber tudo aquilo que Caraíva e o seu povo têm para dar, de maneira que acabei por adiar o meu voo por mais um mês.

Naqueles dois meses fui genuinamente feliz a toda hora e só tenho a agradecer a cada pessoa que fez com que assim fosse, a cada pessoa que me fez sentir sempre em casa. Depois desta experiência tenho ainda mais a certeza de que o tempo pode assumir diversas dimensões e que voluntariado é ter a capacidade e a vontade de nos adaptarmos e descobrirmos o desconhecido e de nos entregarmos ao que está por vir, de alma e coração abertos. É preciso estarmos prontos para dar tudo de nós, mas é também muito importante sabermos receber, porque as crianças oferecem-nos um pouco de si e do seu amor a cada segundo.

Dar, receber, simplificar, sorrir, amar, aproveitar, (re)aprender, cativar, cantar, dançar, agradecer, descobrir, aventurar, encontrar, valorizar, confiar, surpreender… Estas são algumas das palavras que marcaram e que resumem esta inexplicável experiência!

Chegou ao fim e as lágrimas foram muitas, por um lado significavam tristeza mas por outro significam alegria. Tristeza pela tarefa mais difícil que já fiz: despedir-me de cada uma daquelas crianças, e alegria por ter a certeza de que esta foi a melhor experiência da minha vida. E agora o meu coração está a rebentar por tudo quanto é lado, devido às saudades, ao meu monte de memórias boas que trouxe comigo e também por não saber quando hei de voltar a ver as pessoas que se tornaram como uma segunda família.

Voltei a Portugal, mas prometi a mesma que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para voltar ao lugar que se tornou a minha segunda casa o mais rápido possível.