A experiência da Beatriz no Tarrafal

Oi, modi qui bu sta?😊 Vou começar por me apresentar: sou a Beatriz, tenho 22 anos, sou licenciada numa coisa a que lhe chamam de Economia. Esta minha grande aventura começou quando decidi deixar o mestrado que estava a fazer, em estudos africanos, e decidi procurar algo que me desse a conhecer melhor o continente africano e me ajudasse a perceber se me adaptaria bem à realidade africana e se futuramente poderia ter um papel importante no desenvolvimento económico e social no país que fosse.

Depois de alguma pesquisa encontrei a associação Para Onde?, entrei em contacto e pus todas as minhas dúvidas, que como devem calcular eram bastantes. O que vou fazer? Para que associação vou? Qual é a missão e visão da associação? (É muito importante terem isso em conta), vou ter onde dormir? Posso levar computador? Entre muitas outras… E foi assim, escolhi ir para uma associação em Cabo Verde, na Ilha de Santiago, mais especificamente no Tarrafal, cuja visão que prevalecia revelou-se, na minha opinião, não ser a melhor para o desenvolvimento das crianças, contudo não deixei que isso afetasse o trabalho que iria lá desempenhar, pois quando vais para uma missão destas, tu vais pelas crianças, tu vais para lhes dar carinho, sabedoria e a tua amizade, algo que em casa é muito difícil elas terem e que na verdade a inexistente transmissão destes sentimentos no dia-a-dia de cada uma, afeta-os na sua maneira de ser e no seu comportamento para com outros meninos.

Na organização de acolhimento há várias áreas que podes ajudar a desenvolver. Eu fiquei alocada aos treinos de futebol, às aulas de informática e ainda dava apoio na sala de estudo. Funcionava como género de ATL, onde as crianças antes ou depois das aulas iam lá estudar, jogar, fazer trabalhos manuais ou simplesmente brincar. Era como um refúgio à realidade em que viviam!

Quando lá chegámos muitos olhares curiosos permaneciam sobre nós, depois da boa tentativa de conhecer as instalações do projeto – pois muita coisa estava a acontecer ao mesmo tempo e tu, perante uma realidade nova, queres tentar assimilar tudo – começou então o nosso grande desafio!- o que vamos fazer para que cada uma destas crianças se sinta feliz e realizada, capaz de  ultrapassar qualquer obstáculo e perceber que o sucesso é conseguido através de tentativas e erros? Bem… tarefa bastante complicada, pois eles passam o dia todo a ouvir de pessoas mais velhas “ teni cabeça cansada, continua amanha” (isto passado uns 10 minutos de concentração) e depois eles próprios replicavam “nhm ka consigui más, cabeça sta cansada”, ou então, “hnm ka crê más” e deixavam o que estavam a fazer a meio. É um grande desafio quer para os voluntários quer para a restante equipa do projeto, pois são crianças com necessidades bastante peculiares, em que é necessária uma constante atenção, estímulo e acompanhamento individual.

O melhor desta experiência de voluntariado não foi de todo o trabalho que desenvolvi dentro do projeto, mas sim fora. Sinto que foi fora que consegui dar tudo de mim, de forma bastante natural e verdadeira.

Desde conhecer a Sofia, a Tairine e a Adi no caminho para o liceu, assistir às aulas delas e depois ajudá-las em casa com os TPC’s no final de tarde de cada dia, desde jogar à bola com o Liedson, o Preto, o pequenote Rafa e outros meninos na rua, até fazer de tudo para que as minhas pirralhitas (Edimara, Jéssica, Catty e Vanessa) saíssem de casa, ao fim de semana, brincar no parque ou ir à praia. Conhecer a Maria, a Mana, a Gregória e passar horas a falar de aventuras, da vida no Tarrafal e o que fazer para mudarmos o rumo desta grande pequena cidade. Todas estas vivências fizeram me ter um amor especial pelo Tarrafal que não deixarei desvanecer.

Esta experiência de voluntariado mudou o rumo da minha vida e, se tiveres o bichinho contigo, não o percas, independentemente do que as pessoas que te rodeiam digam ou pensam, porque vale bastante a pena, tu transformas a vida das pessoas para melhor e a tua sem mais nem menos muda. Um grande obrigada ao Para Onde?, Inês e Marta, bastante atenciosas e sempre preocupadas, obrigado pelo vosso esforço e dedicação a este grande projeto!