O testemunho do Bakary

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“Chamo-me Bakary e venho da Gâmbia, cheguei sozinho a Itália em Abril de 2011 por Lampedusa – tinha 16 anos. Fui resgatado pela Associação Save the Children e levado para um acampamento improvisado de barracas para refugiados. Fiquei lá 23 dias e contei cada um deles. Foi de lá que parti para uma comunidade residencial de menores a 40km do aeroporto de Catânia. Fiquei lá um ano e meio e o início foi realmente difícil. Não entendia ainda a língua Italiana e poucos falavam Inglês. Passei muitos dias a estudar sozinho, intensivamente. Tive a oportunidade de frequentar a escola, mas sentia-me desconfortável porque éramos os primeiros alunos de cor negra a viver naquela cidade. Fugiam de mim, mudavam de rumo na rua para me evitar… Por isso mesmo, retraí-me muito, preferia sempre ficar sozinho em casa. No entanto, tinha uma enorme necessidade de me mexer, de libertar fisicamente tudo aquilo que me passava pela cabeça. Comecei a correr muito, primeiro sozinho, depois acompanhado. Repararam na minha condição física e convidaram-me para jogar futebol na principal equipa da cidade. Aí a minha vida começou finalmente a mudar. Mas, precisamente nesse período de maior mudança, veio mais uma: fui transferido para outra comunidade residencial para menores em Bari, no sul do país. Apesar da minha apreensão inicial, o dia em que lá cheguei foi o mesmo dia em que me inscreveram numa boa escola e que eu entendi que iria começar a construir o meu futuro com a ajuda das pessoas que lá trabalhavam. Terminei o 9º ano com boas notas, fiz um estágio e rapidamente encontrei emprego num restaurante. Apesar das dificuldades do país, tive sorte. Tenho neste momento contrato de trabalho há mais de um ano e meio. Ajudaram-me a estudar a língua, a encontrar um emprego e uma casa. Hoje estou integrado, independente e feliz!

Também tive más experiências, claro. Muitos nos olham mal, dizem que viemos para roubar os empregos e as pessoas. Discriminam-nos. Lembro-me que uma vez estava sozinho no autocarro a voltar para casa do trabalho e o motorista obrigou-me a sair porque disse que não me iria levar só a mim a lado nenhum. Gritou-me que o caminho acabava ali. Não sou uma pessoa violenta, perdi o dinheiro que tinha gasto no bilhete e saí. Tentei fazer uma queixa, mas vi que o responsável não estava minimamente interessado e simplesmente fingiu que a tinha assente, nunca resultou em nada. Às vezes surgem estas situações, mas temos de aprender a respirar fundo e manter a nossa integridade.

Decidi ajudar aqueles que chegam na mesma situação em que eu cheguei, tornando-me assim mediador intercultural. Ajudo como intérprete de refugiados menores e sou a ponte entre eles e os mais variados serviços judiciais, escolares, de saúde, etc. É algo que me dá um enorme gosto fazer.

Queria fazer algo mais. Comecei a participar em campos de voluntariado internacionais organizados pelo Serviço Civil Internacional. Trabalhei, junto a jovens de todo o Mundo, na reconstrução de um centro social e também organizámos vários debates e atividades sobre a imigração em Itália, jovens que vivem em ghettos e trabalhos forçados sem quaisquer condições. Aprendi muito sobre este assunto que me toca de forma tão profunda.

Hoje estou feliz. E o voluntariado é algo que me fez, sem dúvida, encontrar a alegria na vida. Continuarei a fazê-lo sempre, todos nós o deveríamos fazer.”

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(Traduzido da língua Italiana)