A experiência da Ana Sofia na Ilha da Boavista

Já estou de volta a Portugal e ainda não consegui mentalizar-me de que o último mês foi real. Quando há alguns anos atrás surgiu a vontade de fazer voluntariado fora do país, parecia-me algo muito longínquo até decidir começar a procurar mais sobre o assunto. No último ano o “bichinho” cresceu ainda mais e decidi que estava na altura de pôr em prática a ideia de há tantos anos! Foi então que encontrei a associação “Para Onde?” e tudo me começou a parecer bem mais simples e realmente possível. E desde o tomar a decisão até lá chegar, foi um pulo. Quando me apercebi já estava a aterrar na Ilha da Boavista, em Cabo Verde. Tentei preparar-me antes de ir para lá mas nunca conseguimos estar verdadeiramente preparados para o que se vive numa experiência destas.
Aquele primeiro dia foi um choque. Quando cheguei àquele bairro, parecia coisa saída de um filme. Demorei imenso tempo a cair na realidade e a perceber que realmente lá estava, que estava mesmo a viver aquilo! Só dois dias depois é que estivemos pela primeira vez com as crianças. Chegámos ao Jardim de Infância e fomos recebidas por mais de uma centena de crianças a gritarem “tia”, a abraçarem-nos e a tentarem subir por nós acima para nos darem beijinhos. Fomos tão bem recebidas! E o mais incrível é que todos os dias éramos recebidas como se fosse o nosso primeiro dia. Enchiam-nos o coração dia após dia. Mas nem tudo foi fácil. Uma realidade completamente diferente da nossa, condições bem diferentes das que estava habituada e tantas outras coisas com as quais tivemos que lidar. Levava imensas ideias que gostava de ter posto em prática e que rapidamente percebi que seriam impossíveis de concretizar, o que nos primeiros dias levou a uma certa frustação. Não é fácil manter aquelas crianças concentradas a fazer algo durante muito tempo seguido! Mas rapidamente isso se contornou, foram apenas alguns dias de adaptação até entrar no ritmo daquelas crianças com tanta energia e tanto amor para dar.

O ambiente daquele país é incrível, as pessoas são maravilhosas, são um povo fantástico! E a forma como levam a vida é invejável. Rapidamente fui contagiada pelo “No stress” que ali se vive. Uma tranquilidade inexplicável que me fez questionar o porquê de levarmos uma vida inteira a correr. Ali aprendi que é realmente tão fácil ser feliz.
Este regresso a casa foi das despedidas mais dolorosas pelas quais já passei. As lágrimas teimavam em correr sem que eu conseguisse ter mão nelas. São muitas pessoas que ficam para trás, muitos locais, muitos momentos. Um mês muito intenso de tantas recordações. Mas venho de coração cheio e com a certeza de que nestas ocasiões a típica frase do “recebemos bem mais do que aquilo que damos” é realmente verdade.

Não será nunca um adeus. Ainda nem tinha vindo embora e já estava a pensar no regresso. Ficou feita a promessa de que voltarei um dia ♡