A experiência da Ana Luísa no Nepal

2017 foi o ano de realizar uma das experiências mais fascinantes que há tanto esperava: realizar voluntariado internacional. Foi um sonho de infância tornado realidade, foi um desprender de tudo, deixando tudo para trás e um agarrar gigante a uma nova forma de viver!
Durante três meses viajei pela Ásia. Conheci o esplendor da Malásia, os paraísos da Tailândia, a simplicidade do Vietname, e o caos, no destino mais improvável e esquecido de todos, o Nepal.

 


Foi no Nepal, neste pequeno recanto do mundo, que realizei uma jornada fascinante de voluntariado com crianças órfãs. O Nepal é um país de contrastes esmagadores onde impera a luta pela sobrevivência, mas mesmo assim, um país com um povo tão simples e tão único, um povo de coração aberto capaz de uma amabilidade extraordinária.
O Nepal é um cantinho do mundo esquecido onde, só na capital Kathmandu, segundo a ONU, há mais de 9.000 crianças de rua, órfãs e abandonadas à sua sorte que vivem em condições de extrema pobreza. Conhecido este triste fato, estava traçado aquele que seria o objetivo desta jornada de voluntariado no Nepal: crianças órfãs.

Os orfanatos no Nepal oferecem aquilo que é o essencial do essencial (e sem duvida fundamental): um teto! As crianças são retiradas da rua, às vezes, após anos a viver sozinhas. Tem então um lar, um espaço ao qual podem chamar “casa”, onde vivem com conforto e em segurança, longe do caos das ruas, sem carência de alimentação.
Nestas casas as crianças são felizes e o grande objetivo é que as crianças tenham acesso à educação. Infelizmente, sendo este um gasto muito elevado, nem todas as crianças acolhidas tem essa possibilidade.

 

A minha convivência com aquelas crianças rapidamente me mostrou que existiam várias carências: amor, afeto, regras, hábitos de higiene e alimentação adequados e acesso apropriado à aprendizagem e cultura.
É aqui que o voluntariado ganha força. É aqui que o trabalho desenvolvido se reveste de extrema importância para estas crianças.


Nos orfanatos de Kathmandu o dia começa bem cedo, com um pequeno almoço, que para mim tem tanto de estranho como de reforçado, constituído por arroz e sopa de lentilhas (o famoso dal bhat) e legumes muito picantes (que é como quem diz dolorosamente picantes). Após as crianças, literalmente, devorarem o pequeno-almoço, é hora de lavar os dentes, mãos e cara, vestir o uniforme escolar e ir para a escola.  Quando as crianças regressam da escola é hora de fazer os trabalhos de casa e rever a lição aprendida. As crianças adoram receber ajuda nestas tarefas, sendo que eu cuidadosamente ajudava nos trabalhos de inglês e matemática. Realizado o dever de estudo, as crianças ficam livres para atividades lúdicas. Entre badminton, andar de bicicleta, jogar às cartas, jogar à bola, ver televisão, fazer desenhos ou ler histórias há espaço e tempo para me pedirem (ou roubarem) muito mimo e colo, arrancando de mim um sorriso sem fim e um suspiro de amor.


Quero acreditar que o pouco do meu trabalho foi muito, quero acreditar que cada gesto de amor fez a diferença. Sei que não dei só o melhor de mim, dei-me a mim de uma forma completa e inteira e sei que recebi ainda mais do que aquilo que dei.


Regresso a casa uma pessoa diferente, mais simples e ao mesmo tempo mais completa, mais feliz, mais consciente e mais humana e sobretudo com o coração preenchido de amor e serenidade e com a certeza de que “é preciso tão pouco para ser feliz”.