Ana, Guiné-Bissau 🇬🇼

No dia 4 de abril embarquei naquela que seria a melhor experiência da minha vida, a maior aventura e que finalmente consegui realizar, quando tinha a certeza que ia dar mais sentido à minha vida. Senti que precisava de encontrar um rumo e que passaria por contribuir positivamente na vida de alguém. Não sabia o que esperar, mas quando vi aqueles miúdos no aeroporto para me receberem e cantarem uma canção de boas vindas, ai com os olhos já a brilhar percebi que tinha tudo para dar certo. É tão difícil colocar em palavras tudo o que vivi em 120 dias. Saber que naquele lugar eu fui realmente feliz. Consegui perceber que a felicidade pura existe e eu pude vivê-la. Fi-lo para descobrir ainda mais sobre mim e sobre o mundo. E por outro lado, acreditava que precisava de um ‘choque’ com outra realidade basicamente, sair da minha zona de conforto.

Foram meses a trabalhar em triplo para monetariamente, conseguir suportar o tempo que ia estar fora, dias e dias com os meus a divertir-me para que as saudades fossem atenuadas antecipadamente. E num abrir e fechar de olhos era eu partir sozinha na aventura. Fui e descobri a verdadeira definição de amor e partilha. Fui e conheci o povo da Guiné-Bissau um povo humilde. A verdade é que as palavras nunca irão descrever tudo de bom que aquele bairro me deu.

Ter contacto com a pobreza, num primeiro momento, pode ser mais chocante do que esperávamos, nada parece real. As condições ou falta delas são assustadoras. É uma densidade problemática derivada a um sistema corrupto e despreocupado. Uma brutal desigualdade de uma sociedade com escassos meios para vingar. É como ter numa mão a humildade e na outra a crueldade. Aquele bairro é um lugar onde a gratidão e a bondade vivem em plena harmonia, onde a felicidade é um modo de vida e não um objetivo. Estes meninos têm muito menos razões para sorrir que muitos de nós, no entanto, são eles os mestres na arte da alegria. Foi com eles que passei os melhores momentos. Foram eles o motivo do meu cansaço. E são eles que me dão uma vontade enorme de voltar agora. É um amor sem fim.

A magia que aquele lugar tem, apesar de ser única é indescritível. O povo guineense são um povo trabalhador e um povo corajoso perante tantas dificuldades, que acreditem são muitas, e ainda assim tão genuinamente feliz. Podia simplesmente estar a passar há frente de suas casas e convidavam logo para comer junto deles, o pouco que tem gostam de partilhar. Que inspirador. Estou grata por ter tido a oportunidade de ter feito parte deste projeto na Escola Humberto Braima Sambú, por ter sido tão bem recebida pela comunidade, por ter vivido a melhor e mais gratificante experiência da minha vida, e tenho uma profunda tristeza por ter chegado ao fim.

Nestes 4 meses aprendi que é preciso ser flexível e estar disposto a adaptar os planos às condições, que nem sempre são favoráveis. Aprendi um pouco sobre as tradições, o seu estilo de vida, no que acreditam. Aprendi também que há um mundo completamente diferente do que estamos habituados, uma realidade às vezes dura de ver. Foi principalmente pelas crianças que fui e foi com elas que aprendi mais. É incrível
a quantidade de amor que têm para dar. Com elas aprendi que não somos o que temos, somos o que damos, o amor o afeto. Aprendi que a felicidade está nas pequenas coisas e que precisamos muito menos do que aquilo que julgamos.

Fazer voluntariado é ter capacidade de adaptação e vontade de descobrir. É sair da zona de conforto e perceber que até te dás bem por lá. É a possibilidade de te reinventares em situações desconhecidas. É saber aproveitar o aqui e agora. É assumir a aventura. É querer aproveitar ao máximo. É querer partilhar tudo isto com quem te incentivou e apoiou a vir. É perceber que existem outras realidades, bem distantes das nossas. É conhecer outros sons e outros sabores. É poder apreciar um céu estrelado e paisagens com novas cores. Fazer voluntariado é receber tanto, aprender, crescer, se adaptar e evoluir. É fechar os olhos, sentir a chuva a bater na cara e desfrutar de uma nova sensação de liberdade. É perceber que dentro da pobreza também é possível encontrar o paraíso. É conformar com o “arroz nosso de cada dia”. É viver com e como os locais. E se cada um de nós tivesse uma experiência destas na vida, as pessoas eram bem mais felizes e mais gratas pela vida no geral.

Para mim, Bissau foi viver intensamente cada momento, foi ver os sorrisos e gargalhadas mais genuínos, foi andar de pé descalço e de espírito leve, e foi dançar (ou tentar) ao som de Charbel e Eric Dáro com os miúdos, foi encontrar uma família em África, foi dar um pouco de mim sem estar à espera de receber a dobrar, foi conhecer- me melhor, foi fazer amigos verdadeiros, foi aprender o quão delicioso é viver desapegado do materialismo e de pequenos luxos, foi ser criança outra vez, foi rir e abraçar muito e é ter uma vontade enorme de voltar neste momento. O meu coração transborda amor e os meus olhos um brilho especial por todas aquelas crianças que me marcaram para sempre. Obrigada a todos os voluntários que partilharam a mesma aventura que eu e me terem proporcionado momentos para a vida. Obrigada Para Onde por esta oportunidade.

Este regresso a casa foi a despedida mais dolorosa pela qual já passei, dá-se um aperto enorme no peito, pois a vontade de ficar toma proporções que não pensei que fosse possível. As lágrimas teimavam em correr sem que eu conseguisse ter mão nelas. De repente aquilo que já tinha virado rotina, aquelas pessoas que me acolheram como se fosse parte da família já não estavam lá mais. E custa muito. Mas é porque o sentimento foi puro, foi genuíno. Fiz as amizades mais bonitas na Guiné-Bissau. São muitas pessoas que ficam para trás, muitos locais, muitos momentos. Sinto saudades de quem lá deixei e saudades de quem lá era, uma versão mais simples, mais livre e mais pura de mim. Quatro meses muito intensos e cheios de tantas recordações. Venho de coração cheio e com a certeza de que fiz a escolha certa ao ter partido rumo há Guiné. Os sorrisos e os abraços daquelas crianças são o retrato e a imagem de Bissau que levo comigo para todo o lado. Volto transformada e volto incompleta, porque uma parte de mim permanecerá para sempre lá. A esse sítio que será para sempre especial. Onde deixei um bocado de mim, mas de onde trouxe ainda mais. Guiné-Bissau me conquistou e fará sempre parte de mim. E eu mal posso esperar pelo dia em que vou voltar e viver tudo outra vez. Guiné-Bissau até breve.