A experiência da Ana na Ilha da Boavista, CV

Dependendo das características pessoais de cada um, todos iremos com expectativas diferentes para uma mesma realidade. As minhas expectativas foram tanto superadas como, em alguns casos, frustradas. Faz parte. Lidámos com crianças carentes de muita coisa, mas ricas em muitas outras. E assim somos todos, em todo o lado – é aquilo que concluímos. Embora já o tenhamos visto em filmes e documentários, há imagens que não nos transmitem a mesma força quando vistas apenas numa tela. Ter contacto directo com a pobreza, num primeiro momento, pode ser mais chocante do que esperávamos. Mas depois acabamos por nos habituar, quando nos apercebemos que não existe uma infelicidade latente, muito pelo contrário – existe muita alegria! Talvez seja do povo em si, talvez seja do clima – rimos muito mais do que chorámos!

O primeiro contacto com o bairro e com as condições em que vivem aquelas famílias deu-me um frio na espinha, mas como o passar do tempo conseguimos adaptar-nos a esse paralelo. Crianças são crianças em todo o lado. Com mais ou com menos coisas, são alegres, são sonhadoras, são brincalhonas, têm um mundo próprio construído de forma independente das questões e diferenças sociais. Essa noção virá mais tarde. Mas embora haja essa similitude entre todas as crianças do mundo, também existem diferenças. Tanto eu como as minhas companheiras de aventura, tínhamos alinhadas várias actividades que acabaram por não acontecer da forma que esperávamos. É difícil sentar estes miúdos por mais de três minutos, é difícil que prestem atenção e se interessem por determinadas coisas. É notório a pouca prática de estudo, de interiorização e de memorização. É um trabalho árduo organizá-los em grupos, atribuir tarefas, transmitir alguns conhecimentos. São miúdos que vão à escola, muitos já sabem falar e escrever português, mas também estão muito habituados a andar pelas ruas, a serem retirados das actividades escolares para afazeres domésticos ou para cuidar dos irmãos ou primos mais novos, etc. A escola é uma obrigatoriedade pouco obrigatória, por assim dizer, havendo muitos que desistem a meio. Existe também uma preguiça, possivelmente de cariz cultural, que os leva a ser mais leves, pouco disciplinados e muito libertos. E tudo isto é um desafio, não necessariamente negativo.

A forma como está organizada a associação e as infraestruturas oferecidas ainda precisam de muitas melhorias. Eram demasiados miúdos para salas tão pequenas; eram idades demasiado díspares para haver uma homogeneidade nas actividades. Mas tudo a seu tempo… De qualquer forma… o Amor é uma coisa tão universal, que não olha a cores, não olha a etnias, não olha a estratos sociais…! Fomos recebidas sempre de braços abertos e sorrisos rasgados, mesmo por aqueles que no dia anterior tinham levado com algum sermão por se terem portado mal. Lá vinham eles a correr, uns mais extrovertidos que outros, e a gritar “As professoras chegaram!”. Era vê-los a surgir dos vários pontos do bairro, de sorriso aperaltado, e com vontade de dar abraços. Queriam brincar, queriam ir à praia, queriam aprender coisas!

Para embarcar numa missão destas é preciso ter uma forte capacidade de não sentir pena. Nem pena deles por viverem de forma mais humilde, nem pena de nós por nem sempre conseguirmos concretizar o idealizado. É preciso ter noção que a nossa fórmula para a felicidade não é necessariamente a correcta. A felicidade é uma riqueza intrínseca a cada um. É preciso ter noção que a educação é outra, que a energia é outra… e há que valorizá-la e respeitá-la. Contudo, isso não quer dizer que devemos compactuar com a manutenção da pobreza. Sim, é preciso levar ajuda, sim, é preciso levar conhecimento, sim, é preciso que todas as pessoas tenham mais acesso a boa alimentação, a água potável, as condições de vida mais dignas. Sim, estes miúdos merecem viver em casas com chão e telhados, com água canalizada e com acesso a serviços de saúde mais eficazes. Não devemos sentir pena, porque precisamos de transmitir confiança e alegria (e receber o mesmo em troca), mas a ajuda internacional tem sido, efectivamente, a maior fonte de criação de oportunidades para estas crianças.

Sabemos que o turismo é a principal fonte de rendimento, mas não com as proporções justas. O turismo rende milhões, mas os trabalhadores ganham muito pouco e vivem mal. As roupas que usam, o material escolar, etc, são, em grande parte, fruto de doações. Mas é difícil atribuir culpas… E não sou eu, em tão pouco tempo, que tenho as repostas para muita coisa.

Aquilo que sei com toda a certeza é que vale a pena… Vale a pena viajar, vale a pena conhecer o mundo e as pessoas que vivem nele, vale a pena sorrir e abraçar, vale a pena conversar e brincar, vale a pena desconstruir preconceitos, vale a pena lutar pelo bem comum.

Agradecemos o apoio dado pelo Lamine e pelo Júnior. Agradecemos muito à Organização Não Governamental MarAlliance (Cintia Lima e Zeddy) pela oportunidade que nos deram, a nós e aos miúdos, de ir até ao mar e fazer snorkling, assim como as aulas teóricas dadas onde ensinaram muita coisa sobre a biodiversidade marinha de Cabo Verde e como protegê-la. Sem eles, tinha sido tudo muito diferente!