A experiência da Alice em Arraial d’Ajuda

Aquele momento em que tu estás a ajudar a mudar a vida de outras pessoas e, sem te aperceberes, estás a mudar a tua…

Cheguei a Arraial d’Ajuda despida de tudo aquilo que me moldava e definia enquanto pessoa. Estava fora da minha zona de conforto, por isso cada lugar, pessoa, sabor ou cheiro eram absorvidos de uma forma única. Na Bahia não há pressa, a vida desenrola-se lentamente, com muitos sorrisos e boa disposição à mistura – “Sorria, você está na Bahia”. Na rua toda a gente se cumprimenta e ricos e pobres confundem-se no ambiente descontraído e despreocupado deste pequeno paraíso.

Arraial D’Ajuda é conhecida como a esquina do mundo, onde há uma mistura de europeus, indígenas e descendentes africanos. E é nesta esquina que surge um cantinho chamado bairro de São Pedro, onde, no largo da igreja, nos cruzamos com as crianças a caminho da Associação Filhos do Céu.

Eu, a Inês e a Andreia fomos recebidas com beijos e abraços, como se nos conhecessem desde sempre, como se já fizéssemos parte desta grande família! Logo no primeiro dia colocarem-nos a par do contexto social destas 150 crianças que integram a associação. Favela, racismo, tráfico de droga, tráfico de mulheres e prostituição – um murro no estômago, que nos fez abrir o coração para abraçar estas crianças!

Amor, gratidão e gentileza são as palavras de ordem e os maiores valores que são transmitidos a estas crianças. Em cada mês é abordado um tema diferente, e em dois meses tivemos oportunidade de trabalhar o tema “Criança” e respetivos direitos e deveres, e o tema “Consciência Negra” na luta contra o racismo e divulgação da cultura negra. As atividades desenvolvidas para explorarem estes temas passam por uma parte mais criativa, com desenhos, pinturas, músicas e peças de teatro, mas também por uma parte de desenvolvimento crítico, com análise de textos, vídeos e discussão, em conjunto, naquilo a que eles chamavam de “Roda de Diálogo”. É notável que o objetivo da associação seja formar jovens conscientes dos seus direitos e capazes de lutar contra um sistema corrupto. É com o empoderamento que dão e incentivam a estas crianças, que se cria a esperança de um futuro melhor para o Brasil.

 

E eram estas crianças que nos vinham receber, todos os dias, à entrada da associação, com um abraço e um sorriso rasgado! Não há sensação melhor neste mundo do que o amor e carinho que uma criança nos pode dar. Entre brincadeiras e muitos sorrisos contribuímos para os ajudar a conhecer melhor as suas raízes e a desafiá-los a abrir novos horizontes, mostrando que tudo é possível – a mudança está nas nossas mãos, nas mãos deles e de quem quer fazer a diferença.

Sem dúvida, que esta é a melhor forma de nos desconstruir e de valorizar tudo aquilo que sempre demos por garantido. Sem me aperceber, também eu mudei, também eu conheci melhor as minhas origens, também eu alarguei os meus horizontes. Foi inevitável o regresso à infância, voltar a pintar, desenhar, fazer caretas, saltar à corda e jogar à macaca. E tudo isso nos dá uma visão mais simples, mais sensata e mais genuína do mundo.

À Associação Filhos do Céu só posso agradecer por todo o carinho, atenção e dedicação que nos deram e que dão todos os dias, sem hesitar, a estas crianças. Às sempre presentes e incansáveis, Inês e Marta do Para Onde, que permitiram que esta aventura se tornasse real, um muito obrigado. Às minhas queridas companheiras Andreia e Inês, com as quais partilhei momentos inesquecíveis e à nossa família adotiva Barbara, Max e India, o maior agradecimento do mundo!